terça-feira, 4 de dezembro de 2012

O macanudismo de Ricardo Liniers


Hugo Viana


Foto: Allan Torres / Folha de Pernambuco

O desenhista argentino Ricardo Liniers, 39 anos, é um pouco como seus personagens, criações que misturam lirismo humorado com uma certa consciência melancólica da existência. Liniers ganhou uma exposição na Caixa Cultural, "Macanudismo", uma interessante antologia de sua obra, que encerrou domingo, e na sexta-feira veio ao Recife lançar o livro "Macanudo #5", que reúne tirinhas que foram publicadas originalmente em jornais argentinos. 

"Meu interesse por desenho começou quando garoto", lembra Liniers. "Eu gostava de Mafalda, e depois sempre encontrei histórias em quadrinhos de acordo com a minha idade. Na infância eu lia Asterix, na adolescência gostava de Robert Crumb, quando adulto passei a conhecer Art Spiegelman", detalha o autor, listando uma espécie de genealogia de sua influência artística - todos esses autores são, em diferentes níveis, presenças fundamentais em sua obra. 

A transição entre esse primeiro momento de leitor aprendiz para o grupo de criadores aconteceu quando Liniers superou expectativas familiares, mudou o rumo da carreira profissional e entrou no jornalismo como ilustrador. "Consegui ser desenhista mesmo com o código genético de advogado", explica Liniers. "Meu pai era advogado e eu cheguei a estudar direito. Mas quando eu tinha 20 e poucos anos conheci outros com a mesma 'doença' que eu, desenhistas, e eles me ajudaram", comenta. 

"Quem me deu confiança nessa época foi Maitena [Burundarena, desenhista do jornal Página 12]. Ela me convidou para trabalhar no 'Página 12', dizendo: 'Você é um gênio', mas eu sequer sabia se conseguiria fazer uma tirinha diária", revela. "Quando comecei no Página 12 eu criei a tira Bon Jour, em que desenhava as ideias mais bizarras e freaks para chamar a atenção", lembra o autor, comentando sua primeira série de envolvente humor nonsense. 

Liniers parece ter entrado no mercado num tempo particularmente especial da cultura pop, um momento fértil em que o compartilhamento de dados suprime facilmente largas distâncias geográficas e políticas. "Tive muita sorte em aparecer justo agora", diz Liniers. "Um editor uma vez me disse que para um desenhista ser publicado deve passar primeiro pelo jornal. Mas com a internet isso mudou, a internet cruza fronteiras. Muita gente usa meus desenhos, em redes sociais e páginas pessoais. Sou a favor do compartilhamento gratuito", ressalta. 

Os quadrinhos de Liniers representam uma espécie triste de alegria, comentários universais sobre os modos da vida contemporânea e a existência um tanto acelerada da sociedade. "Meus desenhos são muito pessoais. Quando comecei não achava que as pessoas teriam paciência para ler. Mas os livros foram sendo publicados em outros países, na Itália, no Brasil, na República Tcheca. Não esperava ter tantos leitores. Eu me belisco todos os dias. Acho que tem gente estranha em todos os lugares", brinca. 

Liniers também revela um prazer especial por autores brasileiros, ilustradores de traço pessoal e reconhecível. "Fábio Zimbres, um desenhista de Porto Alegre, é o autor mais livre que conheço", opina. "Gosto muito do trabalho de Angeli e Laerte. Me dá raiva não existir livros deles na Argentina. Nós temos mais visibilidade na Europa que nos países vizinhos. Ao mesmo tempo, há como um movimento de comics na América Latina que os europeus ainda não conhecem. Eu gostaria de editar esses trabalhos em países latino-americanos", ressalta. 

Hoje em dia Liniers experimenta um projeto mais ousado: se juntou ao escritor mexicano Mario Bellatin para uma proposta em que imagens e palavras se juntam de maneira única. "Ele está adaptando os textos dele aos desenhos, e eu também estou me adaptando ao estilo dele. Acho que há 30 anos isso não seria publicável", comenta. 

INFÂNCIA

"Quando eu vi Guerra nas Estrelas pela primeira vez eu pensei: eu tenho que ter isso em casa. A maneira que encontrei foi fazendo desenhos do filme, versões muito estranhas que criava com meus amigos", comenta o desenhista, que lista, entre outros filmes importantes, "Rocky" e "Tubarão", "porque tinham sangue" 

JORNAL

"Quando comecei as tirinhas 'Macanudo' a Argentina passava por um momento intenso de crise, todas as páginas do jornal eram pessimistas, tivemos cinco presidentes em uma semana. Na última página tinha 'Macanudo'. No Brasil significa algo como 'supimpa', e em Pernambuco acho que significa 'arretado'. É uma palavra meio fora de moda e também irônica, pelo momento particular da Argentina"

ESTILO

"Gosto de um tipo de humor de contracorrente, que tenha tristeza, que fique entre rir e chorar ao mesmo tempo. Um pouco como Charles Chaplin" 

TRADUÇÃO

"Em Praga a personagem Henriqueta se chama Indrishka. Eu perguntei a tradutora se era esse o correspondente, e ela me disse que não, que deu esse nome porque era o de alguém da família dela. Os tchecos são gente muito interessante"

MERCADO

"As HQs estão num momento incrível. Nos anos 1960 e 70 você só podia fazer humor e aventuras de super heróis. Depois começou um processo de liberação. No começo era tudo muito adolescente, depois os autores começaram a amadurecer alguns gêneros, até que hoje finalmente os desenhistas podem fazer o que querem. A HQ se aproximou da literatura. Ninguém diria a Virginia Wolf sobre o que ela devia escrever. Hoje acontece isso com desenhistas"

SERVIÇO

"Macanudo #5" (Zarabatana Books, 96 páginas, R$ 39)

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Literatura e memória na escrita de Paloma Vidal


Hugo Viana


(foto: Renato Parada)

Os jovens escritores brasileiros, além de autores, geralmente também são críticos e professores de literatura, condição que parece favorecer uma relação de intensa proximidade com a história das palavras e o ofício de criador. É o caso de Paloma Vidal, 37 anos, autora que nasceu na Argentina e aos dois anos veio para o Brasil, morar no Rio de Janeiro. Esse aspecto de deslocamento, um certo embaralhamento geográfico, o sentimento distante de ausência parecem marcas especiais em seu novo livro, o quarto, "Mar Azul". A história começa de maneira criativa: duas meninas, nomes e idades não revelados, conversam sobre aspectos da intimidade, amores sem correspondência e uma espécie de inocência num complexo mundo de adultos. Em seguida, a história muda de ritmo, uma das personagens aparece mais velha. O livro adquire então uma atmosfera de reflexão melancólica sobre os dilemas físicos e emocionais da idade avançada, uma exposição dramática que coloca o tempo, a memória e a natureza (o mar) como fatores carregados de emoção. A protagonista registra seus dias em diários, assim como seu pai fazia anos antes, uma rotina lenta marcada por um tipo de cruzada a favor do esquecimento. Nesta entrevista, Paloma fala sobre aspectos da criação literária e seu trabalho no mercado como professora e crítica literária.  

As primeiras 40 páginas têm apenas diálogos; você não revela nomes ou idades, apenas escreve a conversa entre duas jovens amigas. Gostaria que falasse sobre essa maneira de começar a história.
A forma da primeira parte está relacionada a uma experiência com a escrita de teatro e com a necessidade de criar uma indefinição entre as duas amigas, como se fossem tão próximas que suas vozes quase se confundissem. Daí não aparecerem nomes nem descrições das personagens. A ideia é que tudo vá surgindo na conversa entre elas. 

Anos depois, a personagem, mais velha, enfrenta dilemas da idade avançada. São dois momentos que parecem em choque: o receio do futuro, quando jovem, e as ideias sobre o passado, quando idosa. Por que esta maneira de tratar o tempo?
Acho que mais do que um choque há uma espécie de suplementação. Algo que se acrescenta e que vai modificando o sentido de cada um dos tempos. Minha ideia era que o leitor pudesse ir e voltar de um tempo ao outro, passando da juventude à velhice e vice-versa, de modo que a protagonista fosse jovem e velha ao mesmo tempo.

Como avalia a importância do tema "tempo" no livro? A estrutura fragmentada tem relação com as reminiscências imprecisas da personagem?
A fragmentação é a forma da memória. Procurei segui-la na escrita do livro. Na verdade, durante a escrita, foi um movimento duplo: seguir a linearidade do diário, dia após dia, e ao mesmo tempo estar aberta para as intervenções da memória da personagem, que foi se delineando sem muito planejamento prévio.

Gostaria que falasse sobre a relação entre escrita, esquecimento e lembrança, temas fortes na história.
A imagem inicial era a de uma mulher que não para de lembrar. Isso tem a ver com uma frase do filme "As praias de Agnès", de Agnès Vardas, que acabou virando epígrafe do livro: "Eu me lembro enquanto eu vivo". Depois comecei a trabalhar com a ideia de que ela na verdade não queria lembrar, mas também não conseguia evitar a lembrança. Era um movimento contrário ao do pai que via sua memória se perder, então escrevia para guardar as lembranças. Ela escreve de alguma maneira para se livrar delas.

Qual a importância do mar como elemento na construção do enredo? Que simbologia você pensou em criar?
A presença do mar tinha um motivo sobretudo plástico. Pensei inicialmente numa cor que pudesse percorrer todo o livro. Depois ele foi se relacionando cada vez mais com algumas imagens da memória da personagem, principalmente em relação à ausência do pai. Mas não pensei em trabalhar isso simbolicamente.

Você nasceu na Argentina e hoje mora no Brasil. No livro também existe a condição de trânsito, de deslocamento. Talvez não propriamente "biográficas", mas no livro há experiências ou emoções pessoais? 
Há muito neste livro de experiências minhas no que se refere a uma condição de deslocamento, mas, mais até do que em livros anteriores, a experiência está separada das vivências propriamente autobiográficas. Quer dizer, entendo que há uma separação entre a condição e os acontecimentos. E neste livro experimentei muito com isso.

Assim como outros jovens autores dessa geração, você, além de escritora, também pratica a crítica literária. Em que sentido um trabalho favorece o outro? Existe alguma divisão?
Para mim pensar e escrever sobre literatura é sempre uma maneira de estar atenta ao que eu mesma estou buscando no que escrevo. Não acho que haja propriamente uma divisão, porque as duas atividades estão bastante conectadas, mas é claro que são diferentes, com tempos e formas diferentes, inclusive porque no meu caso é como professora e crítica que ganho a vida, então nesse sentido não me relaciono com elas da mesma maneira e talvez possa dizer que sinto mais liberdade no trabalho como escritora.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

História e política na escrita de Robert Darnton


Hugo Viana

A escrita do norte-americano Robert Darnton, 73 anos, possui a natureza dupla de ficcionista e historiador; ao mesmo tempo em que existe o rigor da pesquisa histórica e da reflexão acadêmica, Darnton procura seduzir o leitor como um autor de gênero policial. O escritor, que participou da Fliporto na sexta-feira, lançou recentemente "O diabo na água benta", publicação em que exercita sua perspetiva de pesquisador, falando sobre a importância da calúnia e da difamação como ferramentas de agitação política na França do século 18. Enquanto observa o passado, narrando detalhes do processo social que antecedeu a Revolução Francesa, Darnton parece revelar conexões com o período atual - a maneira como a calúnia e a difamação se manifestam no jogo político contemporâneo. Em seu texto existe a fascinação criativa do ato de narrar histórias, afastando-se de uma noção didática da escrita, buscando aproximação com o gênero policial; o autor fala, como um investigador que pesquisa evidências de um crime, sobre temas importantes da história. Darnton, que desde 2007 é diretor da livraria de Harvard, também é um dos pensadores da nova era do mercado editorial; seus textos refletem sobre a relação entre digital e analógico, o panorama de mudanças rápidas a partir da digitalização e a dúvida sobre o futuro do impresso. Nesta entrevista, o autor fala sobre seu novo trabalho e opina sobre os livros eletrônicos (e-books).

O senhor é diretor da livraria de Harvard desde 2007, e nesse período digitalizou parte da coleção da biblioteca, facilitando o acesso aos livros. E-books são tópicos de debates entre leitores e escritores, com argumentos positivos (fácil de carregar) e negativos (possível fim dos impressos). Poderia opinar sobre essa rápida mudanças e explicar sobre os valores em jogo nesse cenário?
Eu acho que as pessoas dramatizam uma suposta oposição entre e-books e impressos. Verdade, o uso de e-books aumentou muito nos EUA. O site Amazom reporta que vende mais e-books do que livros tradicionais. Mas o consumo de impressos também aumentou - 6% - no ano passado. Além disso, a venda de e-books frequentemente aumenta a de suas versões impressas. O leitor prova uma novela ou não-ficção no Kindle; se gostar, compra a versão impressa. Nós temos agora livros híbridos. Meu livro mais recente, "Poesia e a polícia: rede de comunicação no século 18 em Paris", é uma monografia tradicional impressa, mas tem um suplemento eletrônico no qual o leitor pode ouvir músicas cantadas na melodia que preenchia o ar em Paris 250 anos atrás. Uma coisa que os livros de história nos ensinam é que um meio não invalida outro durante o processo de troca tecnológica. A impressão de manuscritos aumentou depois de Gutenberg (1400-1468), e continuou muito bem nos dois séculos seguintes.

O senhor é conhecido por estudos da França no século 18. No Brasil acabou de ser lançado "O diabo na água benta", em que você fala sobre a força da calúnia e da difamação naquele período político da história francesa. Já que no Brasil acabamos de ter eleições - e também nos EUA, para presidente - o senhor acha que elas continuam sendo poderosas ferramentas políticas?
Com certeza, a calúnia ainda é uma eficiente arma em batalhas políticas. Quando meu livro apareceu na França, muitos jornalistas disseram que as ideias poderiam ser aplicadas à política francesa. E tendo acabado de testemunhar uma eleição nos EUA, eu diria o mesmo que os franceses. Acredito que a calúnia existe em quase todo sistema político, mas alguns sistemas podem lidar melhor com isso do que outros. Na França pré-revolucionária, isso tocou um nervo e contribuiu muito, na minha opinião, para a radicalização da opinião pública. Na Inglaterra nesse mesmo período, isso foi ainda mais difundido, mas foi encolhido pela elite política. Portanto, acho crucial situar a calúnia dentro do contexto de sistemas políticos particulares, prestando atenção cuidadosa ao contexto da hora e do lugar.

Lendo o livro é possível fazer conexões com a literatura policial, pela maneira como o senhor narra eventos, com investigações e conspirações. Isso foi intencional? Ao mesmo tempo, há muitas informações e detalhes históricos. Como foi o processo de pesquisa?
Como você notou, eu passei um longo tempo fazendo pesquisas para este livro. Eu tentei reconstruir em detalhe as atividades da polícia e dos autores que eles perseguiam. Nesse sentido acabou se transformando numa espécie de história de detetive, que eu espero que divirta os leitores ao mesmo tempo em que informe um pouco sobre um muito diferente e fascinante período da história.

"O diabo na água benta"
Companhia das Letras, 632 páginas, R$ 74,50

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Tradição e memória na literatura de J. Rentes de Carvalho


Hugo Viana

A Fliporto, que chega à 8ª edição (entre os dias 15 e 18 de novembro), vem fortalecendo um perfil interessante: uma programação que ao mesmo tempo reforça a relevância de grandes autores e mostra uma dedicação especial ao apresentar escritores pouco conhecidos. Neste ano, este tipo de revisão política do mercado rendeu o convite ao português J. Rentes de Carvalho, 82 anos, selecionado pelo curador Mário Hélio para participar da mesa "Palavras: as implicâncias, as preferências e as esquisitices". Rentes não tem nenhum livro publicado no Brasil, embora tenha escrito mais de 10 obras em português. Ele fez o serviço militar em Lisboa e foi obrigado, por razões políticas, a abandonar Portugal; viveu então no Rio de Janeiro, São Paulo, Nova Iorque e Paris, até se fixar em Amsterdã em 1956. Essa condição de trânsito e revisão memorialista de tradições está presente em sua literatura; em obras como "La coca" e "A amante holandesa" Rentes escreve histórias de emoções discretas, em que lembranças e costumes nacionais são meios para repassar sensações. Nesta conversa o autor fala sobre a língua portuguesa, que deixou de ser sua forma primordial de comunicação, e temas como tempo e amor em seus livros.

Na Fliporto o senhor vai falar sobre o material para a construção literária, as palavras. Gostaria de saber primeiro se tem, como sugere o título da mesa, "preferências" ou "esquisitices" sobre certos termos da língua portuguesa.
Nem preferências, nem esquisitices. As palavras são instrumentos de que necessito. Acontece, claro, que uma se adapte melhor ao que quero dizer, mas que outra possua um som ou um "colorido" mais interessante. De modo geral a "preferência" ou a "esquisitice" que lhes posso atribuir deixa de ser tomada em consideração se o sentido ou o decorrer da história o exige. A qualidade vem primeiro, para as idiossincrasias pessoais põe-se o travão a funcionar. Pessoalmente, em matéria de preferências, enfrento como escritor o problema particular de que, sendo poliglota, e há mais de 50 anos a minha língua corrente seja o holandês, me aflige, por vezes, que certas palavras estrangeiras me "sirvam" melhor do que as da minha língua-mãe.

Como é sua rotina de escrita, a relação com as palavras e o processo de criação?
As palavras é que se relacionam comigo, mas, francamente, não faço ideia de que modo. E isso de rotina de escrita e processo de criação, ultrapassa-me. Imagino uma história (estória, se quiser), sento-me a pensar, escrevo o que penso, reescrevo, corrijo, volto a corrigir, gasto anos nisso. Nada de especial ou esotérico. Só trabalhinho, muito trabalhinho.

O que acha do processo de unificação das línguas em português? Li seus livros em português de Portugal e pensei que, caso fossem adaptados para o brasileiro, iriam perder algo de tradição. Acha que podemos ser compreendidos sem a unificação?
Claro que sim, e nunca a unificação será  possível. Temos duas línguas com a mesma  raiz, e é bom e enriquecedor que se mantenham as diferenças. Desde menino li boa porção de autores brasileiros, e continuo a ler, escrevi uma tese sobre "Menino do Engenho" de José Lins do Rego; Graciliano Ramos, Machado de Assis, o grande Guimarães Rosa, Trevisan, Bandeira, Vinicius, não sei quantos mais, a todos sou devedor. Do mesmo modo seria bom que no Brasil houvesse muita gente a ler autores portugueses, o que certamente contribuiria para melhor conhecimento mútuo.

Você morou em Portugal e, boa parte de sua vida, na Holanda - fato que entra em seus livros. Existe fronteira entre realidade e ficção?
Não há fronteiras, há osmose, e para complicar a questão tudo se dilui e funde, em certo momento nem o autor consegue saber se é ele próprio, ou se se transformou no outro e nos outros.

Em "La Coca" existe um interessante exercício narrativo: parte significativa do enredo permanece sem explicação direta. Diria que é uma marca de estilo, um interesse por narrar através da sugestão?
Um dos grandes pecados de quem escreve é, por vezes, ter a ideia de que o leitor é um bocadinho fraco de espírito, e tudo se lhe deve explicar. Bem ao contrário, são muitos os leitores mais inteligentes e mais sensíveis que o autor. Explicar e explicitar é o equivalente de fazer a papinha para o bebê, supondo que ao leitor ainda faltam dentes para mastigar a prosa. Aliás, muita dessa prosa, mais das vezes nem o esforço de engoli-la se justifica.

Já em "A Amante Holandesa" existe uma história de amor em que o tempo também é importante. O que diria sobre o tema “amor” em seus livros?
Diria que é um tema funcional, e que raro tenho abordado. E quando o abordo é com o cuidado de, ao contrário do sapateiro da conhecida estória, não ir além da chinela. É tema que, talvez mais do que todos, e refletindo o que Mário Vargas Llosa intitula “a civilização do espetáculo" a literatura tem banalizado, a ponto de que o que deveria ser tratado como um sentimento superior e exclusivo, essencial e querido em todos nós, é tantas vezes rebaixado e reduzido à animalidade.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Exemplar bruto de cinema de gênero


Hugo Viana*


BELO HORIZONTE (MG) - William Friedkin, 77 anos, é geralmente lembrado por dois grandes filmes, "Operação França" (1971) e “O Exorcista” (1973). Depois desses sucessos no início da carreira, a trajetória de Friedkin foi relativamente incerta, alternando bons projetos e peças desastrosas de cinema. Seu trabalho mais recente é "Matador de Alguel", exibido no encerramento da 6ª edição da Mostra Cine BH.

O filme é autêntico exemplar do cinema B, um produto nostálgico de um gênero popular especialmente nos anos 1970, quando Friedkin estava no topo. É um filme sujo, grosseiro e turrão, sangrento e bruto, uma atmosfera facilmente reconhecível de cinema de gênero, especialidade do diretor.

A história é comicamente ordinária; um rapaz novo se meteu com gente errada, deve dinheiro a um mafioso local, e para pagar U$ 6 mil inventa um plano que é claramente equivocado. Por motivos que não podem ser explicados pela lógica, ele convence outras pessoas a entrar na jogada, seu pai, sua irmã e um matador de aluguel (Matthew McConaughey, em atuação excelente).

Revelar mais pode estragar um enredo que prende justamente como um tipo de prazer gorduroso de cinema. A história pertence ao subgênero pulp, lembra romances baratos vendidos na banca de revista por menos de R$ 10, produtos que antes não eram tratados como arte, até Tarantino confundir os limites do bom gosto com os ótimos "Cães de Aluguel" (1992) e "Pulp Fiction" (1994).

Não é preciso esperar muito de sentido ou coerência do roteiro; a história parece existir pelo desejo de brutalidade, por um sentido de encenar coisas que chocam ou geram curiosidade, um bem feito e algo sensacionalista show de horrores. É provável que depois ver o filme ninguém coma uma coxa de galinha da mesma maneira.  

Ao mesmo tempo em que depois de um soco na cara vai jorrar muito sangue, prazeres do cinema de gênero, existe humanidade nos personagens, especialmente no matador de McConaughey, excêntrico responsável por manter o espectador preso ao filme.

*Viagem a convite do Cine BH

História de amor e política


Hugo Viana*


BELO HORIZONTE (MG) - No mercado atual do cinema independente o diretor português Miguel Gomes vem, através de seus dois últimos longas-metragens, estabelecendo-se como um dos realizadores mais especiais. Depois do belo "Aquele querido mês de agosto" (2008), o Cine BH apresentou na segunda à noite "Tabu", vencedor do prêmio de crítica do Festival de Berlim deste ano.

O filme é exemplo elaborado de melodrama de coração doloroso, gênero que geralmente é criticado por falta de originalidade. "Tabu" parece escapar desse argumento usando métodos do cinema contemporâneo, um tipo contemplativo de cinema, e uma combinação de imagens em preto e branco e edição de som que remete ao período do cinema mudo.

É um filme que sugere nostalgia ao cinema do passado, ao modelo de cinema praticado nos anos 1920, mas ao mesmo tempo consciente de métodos contemporâneos de captação e construção de imagens. O diferente uso de películas (35mm e 16mm) não apenas torna as imagens ainda mais sedutoras, mas especialmente parece elevar a carga sentimental do enredo. 

O filme é dividido em duas partes; a primeira se chama "Paraíso Perdido", seguida por "Paraíso". Na primeira temos três personagens principais: as senhoras Pilar, sua vizinha Aurora e a empregada desta última, Santa (as três igualmente ótimas). O segundo trecho narra a juventude de Aurora, na África. Além disso, há uma abertura que, com rara beleza, apresenta o sentimento geral da história, com humor e grande coração.

O filme é uma homenagem ao cinema do passado, especialmente ao diretor alemão F.W. Murnau - o título é o mesmo de um longa de Murnau de 1931, além de a personagem principal ter o mesmo nome de outro filme do diretor alemão (1927), também uma sofrida história de amor. Mas além dessa dimensão cinéfila, o filme se sustenta como autêntico melodrama, a história das dores de um amor impossível, filmado com criatividade e exuberância.

O filme tem um humor muito sutil, uma espécie contida de comédia sobre relações humanas, ao mesmo tempo em que insere dramas existenciais. Destaque para a narração (feita pelo próprio diretor), um texto de muita sensibilidade, que sugere ligações com “As pontes de Madison”.

O filme tem ainda uma dimensão política curiosa: comenta discretamente o estado atual de Portugal ao mesmo tempo em que observa o passado colonialista, a dominação sobre países africanos e os modos de permanência de um sistema político baseado na hierarquia da cor e do dinheiro.

*Viagem a convite do Cine BH

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Registros afetuosos em baixo orçamento















Hugo Viana*

BELO HORIZONTE (MG) - Festivais de cinema geralmente possuem duas metas ambiciosas: apresentar novidades do mercado contemporâneo e recuperar a memória do passado. Esta sexta edição do Cine BH oferece duas retrospectivas que acertam essas propostas. A primeira é do cineasta francês Leos Carax, 51 anos, mais conhecido por “Sangue Ruim” (1986) e “Os Amantes da Ponte Neuf” (1991). A outra é curiosa: exibição de todos os sete filmes do diretor mexicano Nicolás Pereda, 28 anos, obras exibidas, entre outros festivais, em Cannes e Veneza, importantes eventos do mundo do cinema.

“Meus filmes não são simples e monumentais, como os de Béla Tarr ou os de Tarkóvski. Meus filmes são simples e simples”, diz o diretor. Pereda conversou com espectadores do Cine BH e demonstrou conhecimento de cinema, explicando seus métodos de trabalho - uma espécie artesanal de teoria de cinema, que busca inspiração na realidade, ficcionalizando o cotidiano - com um tipo natural de humildade.


Nicolás é formado em cinema nos Estados Unidos, onde atualmente mora: recentemente ele recebeu uma oferta para permanecer na importante universidade Harvard para pesquisar e, se preferir, filmar um novo projeto. “No México existia apenas duas boas faculdades de cinema”, lembra o diretor. “Eu não consegui entrar em nenhuma.”

Pereda chamou a atenção do mercado ao vencer, em 2007, o Morelia International Film Festival. “Quando comecei a filmar mandei meus filmes para todos os festivais que existiam. Depois descobri que o trabalho de um júri é muito aleatório. Cada júri tem um gosto diferente. Tive sorte que um júri americano com gosto estranho premiou meu filme”, explica o realizador.

Os filmes de Nicolás são parecidos uns com os outros e com pouca coisa no cinema contemporâneo. Pereda usa ferramentas do documentário em enredos de ficção; são obras contemplativas, em que emoções fortes e humor são recorrências sutis. Quase sempre são protagonizados por Gabino Rodriguez e Tereza Sanchez, amigos do diretor. “Gosto de trabalhar com atores não-profissionais. Gabino é ator, mas antes disso é meu amigo. Ele não decora falas, constantemente improvisa, enquanto Tereza, que não é profissional, segue o roteiro. Gosto dessas forças diferentes, isso mantém o imprevisto na filmagem”, analisa.

O filme mais recente de Nicolás é “As melhores canções”, que possui com a música um encantador vínculo emocional. O diretor explica que o título não apenas recorre a músicas românticas para explicar partes do enredo - a ruptura familiar e uma certa procura por amor -, mas também remete aos álbuns de “maiores sucessos” de uma banda. “Esse é como se fosse meu ‘maiores sucessos’. Neste filme o espectador encontra a compilação de todos os filmes que fiz”, ressalta.

“Meus filmes são baratos. Filmamos em locações que conheço, casas de amigos”, comenta Nicolás.  “É estranho fazer um filme com orçamento de U$ 400 mil, como em ‘As melhores Canções’. É um filme que se parece com meus anteriores porque eu decidi que, agora que recebo dinheiro, vou pagar adequadamente todos que me ajudaram no passado, e não mudar a maneira de filmar”, ressalta.

“Nos últimos seis ou sete anos o circuito exibidor do México mudou”, diz Pereda. “Abriram mercado para filmes pequenos e estranhos, europeus e latino-americanos. A Cinemateca mexicana exibe filmes europeus importantes junto com obras latino-americanas menos conhecidas. Um filme meu tem em geral 10 ou 15 mil espectadores, o que é relativamente um público pequeno, mas para mim é fantástico. Eu faço filmes com quatro amigos, em duas semanas. Então esse público é ótimo”, comenta.

*Viagem a convite do Cine BH