quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

A necessidade de um posicionamento crítico


Hugo Viana


No meio literário, polêmicas, bobas ou ideologicamente complexas, parecem sugerir a necessidade de refletir sobre os diferentes setores do mercado. A controvérsia mais recente foi a premiação da 54ª edição do Jabuti, em que o Jurado C (o crítico literário Rodrigo Gurgel) deu notas baixas para os principais concorrentes na categoria melhor romance, como Ana Maria Machado (entre 0 e 1,5), e elevadas para o estreante Oscar Nakasato (estratégia possível graças a mudanças nas regras do Jabuti: até o ano passado a nota mínima era 8). A atitude de Rodrigo gerou discussões sobre a crítica literária, a relevância de festivais, a legitimação de prêmios. De 18 de outubro, quando foi revelado o resultado do Jabuti, até 28 de novembro, dia em que foi oficialmente anunciada a identidade do Jurado C (a Folha de S. Paulo antecipou a informação no começo de novembro), Rodrigo não podia se pronunciar, por questões éticas de contrato, sobre os ataques que recebeu; leitores, escritores e editores questionaram seus métodos de análise e sugeriram, com certa desconfiança, que Gurgel quis destacar autores que ele gosta e criticar por rebeldia escritores de prestígio. Nesta entrevista Rodrigo explica sua noção de crítica literária e sua participação no Jabuti. 

Durante parte de outubro e novembro sua participação no Jabuti foi exaustivamente comentada, e você, no entanto, não podia defender suas perspectivas. Gostaria de deixar este espaço livre para você comentar qualquer aspecto que sinta necessidade particular de falar.
Obrigado. As críticas agressivas, sarcásticas ou descabidas que recebi fizeram-me lembrar do grande crítico inglês Samuel Johnson. Ele dizia: “É difícil contentar aqueles que desconhecem o que exigem ou aqueles que exigem propositalmente o que julgam impossível obter”.  

Como é seu método de análise literária? Você possui regras de conduta como crítico que são testadas ou cada obra sugere uma maneira particular de apreciação?

O romance é, por excelência, o gênero para onde convergem todas as possibilidades da criação literária. Aliás, a literatura é a arte do possível, no sentido de concebível. Tudo o que existe ou pode existir cabe nesse universo. Assim, o crítico deve estar aberto a diferentes leituras. Quando inicio um livro, procuro estar livre de ideias preconcebidas. Quero que a obra fale, dialogue comigo. Mas é preciso que ela seja uma estrutura coerente, com vida própria. É preciso que a obra responda a todas as questões que ela mesma se coloca; e deve fazê-lo com tal perfeição que, quando chegamos à última página, temos certeza de que o autor jamais existiu – e que a obra é uma espécie de geração espontânea.   

De acordo com seus valores de análise, poderia explicar as notas do jabuti, o zero de Ana Maria Machado e o 10 de Nakasato? 
Minhas notas nascem de uma leitura fria e imparcial desses romances. "Infâmia", de Ana Maria Machado, é um romance de propaganda ideológica. A autora tem algumas teses que ela pretende defender, comprovar a qualquer preço. Para fazer isso, torna o enredo esquemático e cria personagens sem dúvidas, que, durante todo o livro, ficam repetindo os mesmos julgamentos políticos e históricos. A narrativa possui um didatismo escancarado - e o discurso indireto livre, recurso fartamente utilizado no romance, não consegue tornar a autora invisível. Além disso, há várias cenas inverossímeis. É um romance proselitista, nada mais. Quanto a "Nihonjin", de Oscar Nakasato, que mereceu nota dez, é uma narrativa que trata da imigração japonesa no Brasil, transformando dramas individuais ou familiares em sínteses dos conflitos humanos. O autor trabalha com diferentes pontos de vista, com quebras de continuidade e distintos eixos de tempo. Nakasato quer apenas contar uma história - e não fazer panfletarismo. As personagens, principalmente as femininas, são construídas de forma admirável. O autor sabe trabalhar os aspectos líricos sem desprezar a dramaticidade. E domina muito bem a linguagem. 

Em seu livro "Muita retórica - Pouca literatura (de Alencar a Graça Aranha)" você promove uma espécie de revisão da história da literatura nacional, dos cânones estabelecidos. Acha que autores do passado são geralmente tratados com excessiva reverência? 
Meu livro é fruto do projeto que desenvolvo, desde 2010, no jornal Rascunho. Um projeto cujo objetivo é reler os principais autores da prosa nacional, começando pelos românticos e chegando aos dias atuais. Nesse primeiro volume, publiquei os ensaios que tratam dos prosadores do século XIX. Respondendo à sua pergunta, sim, há excessiva reverência em relação a certos autores. Aliás, não canso de me surpreender com o fato de algumas avaliações críticas se repetirem ao longo de décadas. É curioso que ninguém diga, por exemplo, o quanto Raul Pompeia pode ser pernóstico ou que Adolfo Caminha escreve realmente muito mal. Tenho a impressão de que parcela da crítica pretendeu criar um cânone brasileiro à força. Foram escolhendo os autores que pareciam menos piores e passaram a enaltecê-los de maneira exagerada, a fim de satisfazer uma necessidade meramente nacionalista. Ao agir dessa forma, referendaram uma literatura na qual, dentre outros defeitos, a eloquência prepondera. E ainda hoje encontramos esse problema: o autor que se enamora do seu próprio discurso e não percebe o abismo que separa a literatura da eloquência.

O que diria sobre o momento atual da crítica literária? Não apenas nos jornais, mas também na internet e na academia. 
A hegemonia do estruturalismo e do desconstrucionismo tem causado grandes dificuldades ao sistema literário nacional. Em primeiro lugar, esses estudiosos usam um jargão acadêmico hermético, incompreensível ao leitor comum. Esqueceram-se de que a crítica literária é, antes de tudo, um instrumento a serviço do homem – ou seja, acham que a crítica tem um fim em si mesma. Tal comportamento afasta os leitores. Em segundo lugar, por valorizarem excessivamente a forma, a linguagem, deixaram de acreditar que a obra literária deve dialogar com o mundo. Para eles, a obra é autossuficiente. Ora, uma literatura que dialoga apenas consigo mesma acaba se transformando num eterno exercício artificial de vanguardismo, nada mais. Esses dois problemas levam a um terceiro: se a obra não deve dialogar com a realidade e se o que realmente importa são os malabarismos linguísticos que o autor inventa, então não há necessidade de julgamento – e a crítica torna-se, assim, apenas um exercício de narcisismo. Dessa forma, chegamos ao quarto e último problema: se não há necessidade de julgamento, vivemos numa espécie de permanente bom-mocismo, de hipocrisia generalizada, em que o crítico se restringe a passar a mão na cabeça dos escritores e tratar todos da mesma forma, inclusive os medíocres. Há críticos, evidentemente, que fogem desse padrão de comportamento, mas formam a minoria. Com relação à segunda parte da sua pergunta, não me estenderei. Digo apenas que um crítico como Álvaro Lins faz muita falta nos dias de hoje.     

Ao dar uma nota zero, num evento importante, a uma autora prestigiada, você motivou revolta de autores, leitores e editores. Acha que o meio literário nacional suporta um posicionamento crítico de ideologia firme?
Minha resposta acima, sobre a crítica atual, explica um pouco as patologias que afligem o nosso sistema literário. Compreendo que um editor defenda seus escritores dos críticos severos. Mais que compreensível, é um belo gesto. Também compreendo os autores que desejam ser sempre bem avaliados, pois faz parte da nossa natureza almejar só elogios. Entretanto, não se pode exigir que os críticos não valorizem os escritores que consideram bons. Ou que não deem zero numa votação em que o zero era uma das notas possíveis. Análises duras, firmes, fazem parte de qualquer sistema literário sadio.

Você já foi jurado no Jabuti em outras ocasiões, além da experiência como crítico. Poderia, através do que você  leu, fazer uma avaliação sobre a literatura contemporânea brasileira? 
Apesar de estarmos impregnados da cultura contemporânea, relativista, materialista, de um niilismo que muitas vezes chega a ser atroz, alguns escritores têm, pelo menos, abandonado o vício de recriar um dialeto exclusivo, que só pode ser entendido por eles e meia dúzia de amigos. Há ótimos escritores, dispostos a simplesmente contar boas histórias, corajosos a ponto de desobedecer o que ensinam os departamentos de Letras das universidades, abandonar o pedantismo e, por que não?, escrever inclusive com bom humor, sem se preocupar com discursos politicamente corretos. Logo, logo eles começarão a perceber que a literatura não precisa falar apenas de fracasso, vileza e perversidade.


terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Revisão política e afetiva de Pernambuco


Hugo Viana


José Luiz Passos, 41 anos, nasceu em Catende, morou em Pernambuco e atualmente reside nos Estado Unidos, onde trabalha como professor de literatura na Universidade da Califórnia (UCLA). Essa condição de trânsito, mudanças geográficas (e o consequente amadurecimento emocional) integra seu novo romance, o segundo, "O sonâmbulo amador", que será lançado hoje (com presença do autor), no auditório da Livraria Cultura do Paço Alfândega, em evento às 19h. 

O livro é dividido em quatro partes, segmentos que possuem formas e estilos distintos. O foco da narrativa é o protagonista: Jurandir, pequeno funcionário da indústria têxtil pernambucana. "Ele é um homem que, na iminência de se aposentar, é forçado a prestar mais atenção aos seus sonhos e rever suas amizades", explica José Luiz. "Os cadernos de Jurandir reúnem suas memórias, suas atividades no presente e notas evocando seu passado. A estrutura da história, que se passa no final dos anos 1960, é consequência da situação do protagonista, oscilando entre presente e passado, numa tentativa de ora esconder e ora enfrentar demônios pessoais e lembranças", comenta o autor. 

A história de Jurandir sugere notas sobre a condição social e política de Pernambuco nos anos 1960, perspectivas que alinham o personagem a um momento particular da história do Estado. No enredo, Jurandir parte de uma cidade do agreste pernambucano rumo à Capital para resolver uma questão trabalhista. "O translado do campo à cidade já frequentou muito a literatura brasileira do século XX. No meu caso, tentei dar a Jurandir, pouco a pouco, a descoberta de uma vida mais urbana e uma maior familiaridade com relação a questões políticas que ele próprio se recusava a ver", explica o autor. 

"Mas sua jornada é levada adiante quase que exclusivamente no plano das amizades, em seu sentido doméstico, erótico e coletivo. Jurandir aprende a narrar sua vida interior num contexto em que a intimidade torna-se matéria pública; ou seja, no contexto da análise em grupo e das utopias de salvação espiritual e política", aponta o autor. "A Recife e a Olinda que Jurandir testemunha são ao mesmo tempo, para ele, presentes e passadas; é matéria afetiva e também política", explica. 

Um dos aspectos interessantes do livro é a construção dos personagens; não apenas Jurandir, mas também os coadjuvantes parecem apresentar um notável conjunto de emoções. "A criação dos personagens é, na minha opinião, o aspecto mais sedutor do gênero do romance", diz o autor. "Quando o personagem se desenvolve no contato com outros, temos a progressão do enredo. Procuro desenvolver uma visão clara dos personagens que irão fazer parte dos meus textos. A partir de uma convivência imaginada, começo a compor suas histórias, que resultam na elaboração de uma pequena sociedade. O enredo é a dinâmica de amizade e tensões entre eles. Em seguida, escolho um deles como foco da narrativa e crio uma estrutura, a fim de que um narrador organize os eventos para o leitor", ressalta. 

Embora Pernambuco tenha uma tradição crescente na literatura, o espaço urbano e a geografia do Interior é marca narrativa de poucos autores com alcance nacional. "'O sonâmbulo amador' não está longe dos demais autores que retratam a região", sugere José Luiz. "A literatura feita por pernambucanos ou por autores radicados em Pernambuco é rica e variada. Exemplos de grande originalidade no tratamento da relação entre campo e cidade, entre elite e povo, estão em escritores de diferentes gerações, como Raimundo Carrero, Ronaldo Correia de Brito, Marcelino Freire e Bernardo Brayner - autores que leio com prazer", diz.

"Gosto de me dedicar a projetos longos"

Como é seu processo de escrita, sua rotina de criação literária?
Gosto de me dedicar a projetos longos. Escrevo cortando muito; tipicamente meus romances e contos saem com a metade do tamanho das suas versões originais. Levei em média cinco anos para escrever cada um dos meus dois romances. Tento escrever sempre que posso, principalmente logo após acordar ou depois do almoço. Minhas histórias começam sempre como notas à mão, em cadernetas: um diálogo, uma cena, um traço para um personagem. Depois, os nomes, um passado e, a partir daí, um drama que se desenvolve entre mais de um deles.

Você já foi selecionado para a Granta (volume 8: trabalho), que neste ano fez a primeira edição em português, com escritores que vinham sendo elogiados e agora entram no mercado estrangeiro. O que diz sobre esse momento particular da história literária nacional?
Acho o momento atual excelente. Finalmente parece haver uma maior atenção à necessidade de se apoiar traduções e divulgar dentro e fora do País a ficção contemporânea. As revistas, os suplementos e os prêmios literários têm um papel importante. As mídias sociais também. Espero que tudo isso permita uma maior profissionalização da atividade do escritor no Brasil. Mas não tenho certeza de que um único número da Granta em inglês, dedicado ao Brasil, vá influenciar a distribuição da nossa literatura lá fora. O que está havendo este ano e, possivelmente, no próximo, com a feira de Frankfurt homenageando o Brasil, é um reflexo no campo das artes da nossa posição de maior visibilidade em pautas globais. Isso não necessariamente se traduz em melhor literatura. Porém, a difusão das obras e dos autores permite, ao menos, que uma pequena parte do que se faz em português circule entre leitores de outras línguas. Vejo essa possibilidade com otimismo, mas sem grandes esperanças de que, a curto prazo, isso vá transformar radicalmente a literatura brasileira.

Você é professor de literatura da Universidade da Califórnia. Que tipo (se é que existe) de influência a carreira acadêmica possui em criação literária?
A carreira acadêmica demanda tempo e paciência; é tempo, portanto, que não pode ser usado para fazer ficção. Por outro lado, passo meus dias lendo, escrevendo, preparando aulas e corrigindo trabalhos sobre textos literários que admiro. Compartilhar essas leituras e discutir o lugar delas em nossas vidas me ajuda a ter maior clareza sobre o que quero fazer como escritor. Então, a carreira dá trabalho, mas, por outro lado, ensinar literatura é um modo de aprender a escolher os exemplos que quero seguir e, também, os que quero evitar quando tento participar naquilo que gostaria que fosse um pouco mais de mim.

SERVIÇO
O sonâmbulo amador
Alfaguara, 248 páginas, R$ 39,90

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Monstros invadem praia de Santos!


Hugo Viana

foto: Josi Vicentin 

Gustavo Duarte, 35 anos, tem um gosto peculiar pelo gênero "filme de monstro", e foi essa preferência por lagartos gigantes destruindo cidades que inspirou o cartunista a criar "Monstros!" (Companhia das Letras, 88 páginas, R$ 34,50), HQ de charme nostálgico, que narra de maneira discreta e um tanto cômica uma história sobre criaturas gigantes que invadem a cidade de Santos, em São Paulo. 

"Gosto muito de histórias de monstros, então queria fazer uma homenagem aos monstros japoneses, gigantes e bizarros, que povoaram minha infância", diz o autor. "Eu assistia a esses seriados, via as séries 'Ultraman', 'Godzlia' e 'Spectreman', além dos clássicos de terror da Universal. São programas que eu cresci gostando e admiro até hoje. Mas talvez a maior influência seja 'Indiana Jones', a sensação de aventura misturada ao horror japonês", comenta Gustavo. 

Esse interesse gerou uma obra curiosa, uma história de pouco mais de 80 páginas que apesar de ter origem na cultura japonesa e norte-americana parece especialmente interessante por introduzir tradições e humor brasileiro ao enredo. Há no trabalho de Gustavo a tentativa de transformar a paisagem normalmente vista nesse tipo épico de história, inserindo características da cultura popular nacional e o "jeitinho" brasileiro. 

"Apesar de ser uma coisa 'japonesa', são histórias que influenciaram várias pessoas e passaram a ser mundiais", diz o autor. "Quando escrevi queria que fosse a mais familiar possível, e para mim 'familiar' é Santos. Se morasse no Recife, talvez ambientasse aí, talvez fizesse com que os monstros fossem para Olinda. Mas tenho ligação afetiva com Santos", explica o cartunista, que tirou fotos da cidade como inspiração. 

A HQ reúne imagens que sugerem uma espécie de arqueologia do gênero "monstros", trabalhando com imagens reconhecíveis de filmes novos ou antigos. "Referências não são voluntárias", diz Gustavo. "Acho excelente 'Cloverfield' (2008), um filme moderno de monstro. Pode ser que algumas cenas do filme tenham servido de inspiração. Tem outras imagens icônicas, como a de um monstro saindo da água. Isso não é intencional. A gente é o que consome", comenta.

Não há diálogos em "Monstros!", a história é narrada apenas através de imagens, dando continuidade ao estilo de Gustavo, que em trabalhos anteriores - "Birds", "Taxi" e "Có" - também não usou palavras. "Quando sentei para criar pensei em como contaria a história, se teria um narrador ou diálogos. Resolvi desenhar sem nada, sem nenhum texto, como os cartuns que mais tinha gostado de fazer. Quando conversei com meu editor ele me perguntou se eu conseguiria. Você acaba ficando preocupado em segurar o leitor numa narrativa sem texto. Mas estou achando minha linguagem, meu caminho, e aprendendo com isso", diz.

O trabalho com histórias em quadrinhos ainda é visto com algum preconceito, como se fosse um meio de expressão menor no meio artístico. Ao mesmo tempo, dentro dos gêneros, Gustavo trabalha no terreno de "histórias de monstros", forma narrativa vista como prazer gorduroso e pouco reflexivo. "Preconceito na minha vida nunca funcionou direito", diz o autor. "Eu acho que o quadrinho bem feito é equivalente a um ótimo livro bem feito. Sou cartunista há 15 anos, ilustrei textos de pessoas que acho que escrevem mal ao mesmo tempo em que trabalhei com desenhistas que considero geniais. Não é questão de que um seja melhor do que o outro, tem coisas boas e ruins de cada lado. Fazer bem feito é difícil, qualquer que seja o gênero", opina o autor. 

SERVIÇO
"Monstros!", de Gustavo Duarte
Quadrinhos na Cia
Preço médio: R$ 34,50

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

O macanudismo de Ricardo Liniers


Hugo Viana


Foto: Allan Torres / Folha de Pernambuco

O desenhista argentino Ricardo Liniers, 39 anos, é um pouco como seus personagens, criações que misturam lirismo humorado com uma certa consciência melancólica da existência. Liniers ganhou uma exposição na Caixa Cultural, "Macanudismo", uma interessante antologia de sua obra, que encerrou domingo, e na sexta-feira veio ao Recife lançar o livro "Macanudo #5", que reúne tirinhas que foram publicadas originalmente em jornais argentinos. 

"Meu interesse por desenho começou quando garoto", lembra Liniers. "Eu gostava de Mafalda, e depois sempre encontrei histórias em quadrinhos de acordo com a minha idade. Na infância eu lia Asterix, na adolescência gostava de Robert Crumb, quando adulto passei a conhecer Art Spiegelman", detalha o autor, listando uma espécie de genealogia de sua influência artística - todos esses autores são, em diferentes níveis, presenças fundamentais em sua obra. 

A transição entre esse primeiro momento de leitor aprendiz para o grupo de criadores aconteceu quando Liniers superou expectativas familiares, mudou o rumo da carreira profissional e entrou no jornalismo como ilustrador. "Consegui ser desenhista mesmo com o código genético de advogado", explica Liniers. "Meu pai era advogado e eu cheguei a estudar direito. Mas quando eu tinha 20 e poucos anos conheci outros com a mesma 'doença' que eu, desenhistas, e eles me ajudaram", comenta. 

"Quem me deu confiança nessa época foi Maitena [Burundarena, desenhista do jornal Página 12]. Ela me convidou para trabalhar no 'Página 12', dizendo: 'Você é um gênio', mas eu sequer sabia se conseguiria fazer uma tirinha diária", revela. "Quando comecei no Página 12 eu criei a tira Bon Jour, em que desenhava as ideias mais bizarras e freaks para chamar a atenção", lembra o autor, comentando sua primeira série de envolvente humor nonsense. 

Liniers parece ter entrado no mercado num tempo particularmente especial da cultura pop, um momento fértil em que o compartilhamento de dados suprime facilmente largas distâncias geográficas e políticas. "Tive muita sorte em aparecer justo agora", diz Liniers. "Um editor uma vez me disse que para um desenhista ser publicado deve passar primeiro pelo jornal. Mas com a internet isso mudou, a internet cruza fronteiras. Muita gente usa meus desenhos, em redes sociais e páginas pessoais. Sou a favor do compartilhamento gratuito", ressalta. 

Os quadrinhos de Liniers representam uma espécie triste de alegria, comentários universais sobre os modos da vida contemporânea e a existência um tanto acelerada da sociedade. "Meus desenhos são muito pessoais. Quando comecei não achava que as pessoas teriam paciência para ler. Mas os livros foram sendo publicados em outros países, na Itália, no Brasil, na República Tcheca. Não esperava ter tantos leitores. Eu me belisco todos os dias. Acho que tem gente estranha em todos os lugares", brinca. 

Liniers também revela um prazer especial por autores brasileiros, ilustradores de traço pessoal e reconhecível. "Fábio Zimbres, um desenhista de Porto Alegre, é o autor mais livre que conheço", opina. "Gosto muito do trabalho de Angeli e Laerte. Me dá raiva não existir livros deles na Argentina. Nós temos mais visibilidade na Europa que nos países vizinhos. Ao mesmo tempo, há como um movimento de comics na América Latina que os europeus ainda não conhecem. Eu gostaria de editar esses trabalhos em países latino-americanos", ressalta. 

Hoje em dia Liniers experimenta um projeto mais ousado: se juntou ao escritor mexicano Mario Bellatin para uma proposta em que imagens e palavras se juntam de maneira única. "Ele está adaptando os textos dele aos desenhos, e eu também estou me adaptando ao estilo dele. Acho que há 30 anos isso não seria publicável", comenta. 

INFÂNCIA

"Quando eu vi Guerra nas Estrelas pela primeira vez eu pensei: eu tenho que ter isso em casa. A maneira que encontrei foi fazendo desenhos do filme, versões muito estranhas que criava com meus amigos", comenta o desenhista, que lista, entre outros filmes importantes, "Rocky" e "Tubarão", "porque tinham sangue" 

JORNAL

"Quando comecei as tirinhas 'Macanudo' a Argentina passava por um momento intenso de crise, todas as páginas do jornal eram pessimistas, tivemos cinco presidentes em uma semana. Na última página tinha 'Macanudo'. No Brasil significa algo como 'supimpa', e em Pernambuco acho que significa 'arretado'. É uma palavra meio fora de moda e também irônica, pelo momento particular da Argentina"

ESTILO

"Gosto de um tipo de humor de contracorrente, que tenha tristeza, que fique entre rir e chorar ao mesmo tempo. Um pouco como Charles Chaplin" 

TRADUÇÃO

"Em Praga a personagem Henriqueta se chama Indrishka. Eu perguntei a tradutora se era esse o correspondente, e ela me disse que não, que deu esse nome porque era o de alguém da família dela. Os tchecos são gente muito interessante"

MERCADO

"As HQs estão num momento incrível. Nos anos 1960 e 70 você só podia fazer humor e aventuras de super heróis. Depois começou um processo de liberação. No começo era tudo muito adolescente, depois os autores começaram a amadurecer alguns gêneros, até que hoje finalmente os desenhistas podem fazer o que querem. A HQ se aproximou da literatura. Ninguém diria a Virginia Wolf sobre o que ela devia escrever. Hoje acontece isso com desenhistas"

SERVIÇO

"Macanudo #5" (Zarabatana Books, 96 páginas, R$ 39)

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Literatura e memória na escrita de Paloma Vidal


Hugo Viana


(foto: Renato Parada)

Os jovens escritores brasileiros, além de autores, geralmente também são críticos e professores de literatura, condição que parece favorecer uma relação de intensa proximidade com a história das palavras e o ofício de criador. É o caso de Paloma Vidal, 37 anos, autora que nasceu na Argentina e aos dois anos veio para o Brasil, morar no Rio de Janeiro. Esse aspecto de deslocamento, um certo embaralhamento geográfico, o sentimento distante de ausência parecem marcas especiais em seu novo livro, o quarto, "Mar Azul". A história começa de maneira criativa: duas meninas, nomes e idades não revelados, conversam sobre aspectos da intimidade, amores sem correspondência e uma espécie de inocência num complexo mundo de adultos. Em seguida, a história muda de ritmo, uma das personagens aparece mais velha. O livro adquire então uma atmosfera de reflexão melancólica sobre os dilemas físicos e emocionais da idade avançada, uma exposição dramática que coloca o tempo, a memória e a natureza (o mar) como fatores carregados de emoção. A protagonista registra seus dias em diários, assim como seu pai fazia anos antes, uma rotina lenta marcada por um tipo de cruzada a favor do esquecimento. Nesta entrevista, Paloma fala sobre aspectos da criação literária e seu trabalho no mercado como professora e crítica literária.  

As primeiras 40 páginas têm apenas diálogos; você não revela nomes ou idades, apenas escreve a conversa entre duas jovens amigas. Gostaria que falasse sobre essa maneira de começar a história.
A forma da primeira parte está relacionada a uma experiência com a escrita de teatro e com a necessidade de criar uma indefinição entre as duas amigas, como se fossem tão próximas que suas vozes quase se confundissem. Daí não aparecerem nomes nem descrições das personagens. A ideia é que tudo vá surgindo na conversa entre elas. 

Anos depois, a personagem, mais velha, enfrenta dilemas da idade avançada. São dois momentos que parecem em choque: o receio do futuro, quando jovem, e as ideias sobre o passado, quando idosa. Por que esta maneira de tratar o tempo?
Acho que mais do que um choque há uma espécie de suplementação. Algo que se acrescenta e que vai modificando o sentido de cada um dos tempos. Minha ideia era que o leitor pudesse ir e voltar de um tempo ao outro, passando da juventude à velhice e vice-versa, de modo que a protagonista fosse jovem e velha ao mesmo tempo.

Como avalia a importância do tema "tempo" no livro? A estrutura fragmentada tem relação com as reminiscências imprecisas da personagem?
A fragmentação é a forma da memória. Procurei segui-la na escrita do livro. Na verdade, durante a escrita, foi um movimento duplo: seguir a linearidade do diário, dia após dia, e ao mesmo tempo estar aberta para as intervenções da memória da personagem, que foi se delineando sem muito planejamento prévio.

Gostaria que falasse sobre a relação entre escrita, esquecimento e lembrança, temas fortes na história.
A imagem inicial era a de uma mulher que não para de lembrar. Isso tem a ver com uma frase do filme "As praias de Agnès", de Agnès Vardas, que acabou virando epígrafe do livro: "Eu me lembro enquanto eu vivo". Depois comecei a trabalhar com a ideia de que ela na verdade não queria lembrar, mas também não conseguia evitar a lembrança. Era um movimento contrário ao do pai que via sua memória se perder, então escrevia para guardar as lembranças. Ela escreve de alguma maneira para se livrar delas.

Qual a importância do mar como elemento na construção do enredo? Que simbologia você pensou em criar?
A presença do mar tinha um motivo sobretudo plástico. Pensei inicialmente numa cor que pudesse percorrer todo o livro. Depois ele foi se relacionando cada vez mais com algumas imagens da memória da personagem, principalmente em relação à ausência do pai. Mas não pensei em trabalhar isso simbolicamente.

Você nasceu na Argentina e hoje mora no Brasil. No livro também existe a condição de trânsito, de deslocamento. Talvez não propriamente "biográficas", mas no livro há experiências ou emoções pessoais? 
Há muito neste livro de experiências minhas no que se refere a uma condição de deslocamento, mas, mais até do que em livros anteriores, a experiência está separada das vivências propriamente autobiográficas. Quer dizer, entendo que há uma separação entre a condição e os acontecimentos. E neste livro experimentei muito com isso.

Assim como outros jovens autores dessa geração, você, além de escritora, também pratica a crítica literária. Em que sentido um trabalho favorece o outro? Existe alguma divisão?
Para mim pensar e escrever sobre literatura é sempre uma maneira de estar atenta ao que eu mesma estou buscando no que escrevo. Não acho que haja propriamente uma divisão, porque as duas atividades estão bastante conectadas, mas é claro que são diferentes, com tempos e formas diferentes, inclusive porque no meu caso é como professora e crítica que ganho a vida, então nesse sentido não me relaciono com elas da mesma maneira e talvez possa dizer que sinto mais liberdade no trabalho como escritora.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

História e política na escrita de Robert Darnton


Hugo Viana

A escrita do norte-americano Robert Darnton, 73 anos, possui a natureza dupla de ficcionista e historiador; ao mesmo tempo em que existe o rigor da pesquisa histórica e da reflexão acadêmica, Darnton procura seduzir o leitor como um autor de gênero policial. O escritor, que participou da Fliporto na sexta-feira, lançou recentemente "O diabo na água benta", publicação em que exercita sua perspetiva de pesquisador, falando sobre a importância da calúnia e da difamação como ferramentas de agitação política na França do século 18. Enquanto observa o passado, narrando detalhes do processo social que antecedeu a Revolução Francesa, Darnton parece revelar conexões com o período atual - a maneira como a calúnia e a difamação se manifestam no jogo político contemporâneo. Em seu texto existe a fascinação criativa do ato de narrar histórias, afastando-se de uma noção didática da escrita, buscando aproximação com o gênero policial; o autor fala, como um investigador que pesquisa evidências de um crime, sobre temas importantes da história. Darnton, que desde 2007 é diretor da livraria de Harvard, também é um dos pensadores da nova era do mercado editorial; seus textos refletem sobre a relação entre digital e analógico, o panorama de mudanças rápidas a partir da digitalização e a dúvida sobre o futuro do impresso. Nesta entrevista, o autor fala sobre seu novo trabalho e opina sobre os livros eletrônicos (e-books).

O senhor é diretor da livraria de Harvard desde 2007, e nesse período digitalizou parte da coleção da biblioteca, facilitando o acesso aos livros. E-books são tópicos de debates entre leitores e escritores, com argumentos positivos (fácil de carregar) e negativos (possível fim dos impressos). Poderia opinar sobre essa rápida mudanças e explicar sobre os valores em jogo nesse cenário?
Eu acho que as pessoas dramatizam uma suposta oposição entre e-books e impressos. Verdade, o uso de e-books aumentou muito nos EUA. O site Amazom reporta que vende mais e-books do que livros tradicionais. Mas o consumo de impressos também aumentou - 6% - no ano passado. Além disso, a venda de e-books frequentemente aumenta a de suas versões impressas. O leitor prova uma novela ou não-ficção no Kindle; se gostar, compra a versão impressa. Nós temos agora livros híbridos. Meu livro mais recente, "Poesia e a polícia: rede de comunicação no século 18 em Paris", é uma monografia tradicional impressa, mas tem um suplemento eletrônico no qual o leitor pode ouvir músicas cantadas na melodia que preenchia o ar em Paris 250 anos atrás. Uma coisa que os livros de história nos ensinam é que um meio não invalida outro durante o processo de troca tecnológica. A impressão de manuscritos aumentou depois de Gutenberg (1400-1468), e continuou muito bem nos dois séculos seguintes.

O senhor é conhecido por estudos da França no século 18. No Brasil acabou de ser lançado "O diabo na água benta", em que você fala sobre a força da calúnia e da difamação naquele período político da história francesa. Já que no Brasil acabamos de ter eleições - e também nos EUA, para presidente - o senhor acha que elas continuam sendo poderosas ferramentas políticas?
Com certeza, a calúnia ainda é uma eficiente arma em batalhas políticas. Quando meu livro apareceu na França, muitos jornalistas disseram que as ideias poderiam ser aplicadas à política francesa. E tendo acabado de testemunhar uma eleição nos EUA, eu diria o mesmo que os franceses. Acredito que a calúnia existe em quase todo sistema político, mas alguns sistemas podem lidar melhor com isso do que outros. Na França pré-revolucionária, isso tocou um nervo e contribuiu muito, na minha opinião, para a radicalização da opinião pública. Na Inglaterra nesse mesmo período, isso foi ainda mais difundido, mas foi encolhido pela elite política. Portanto, acho crucial situar a calúnia dentro do contexto de sistemas políticos particulares, prestando atenção cuidadosa ao contexto da hora e do lugar.

Lendo o livro é possível fazer conexões com a literatura policial, pela maneira como o senhor narra eventos, com investigações e conspirações. Isso foi intencional? Ao mesmo tempo, há muitas informações e detalhes históricos. Como foi o processo de pesquisa?
Como você notou, eu passei um longo tempo fazendo pesquisas para este livro. Eu tentei reconstruir em detalhe as atividades da polícia e dos autores que eles perseguiam. Nesse sentido acabou se transformando numa espécie de história de detetive, que eu espero que divirta os leitores ao mesmo tempo em que informe um pouco sobre um muito diferente e fascinante período da história.

"O diabo na água benta"
Companhia das Letras, 632 páginas, R$ 74,50

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Tradição e memória na literatura de J. Rentes de Carvalho


Hugo Viana

A Fliporto, que chega à 8ª edição (entre os dias 15 e 18 de novembro), vem fortalecendo um perfil interessante: uma programação que ao mesmo tempo reforça a relevância de grandes autores e mostra uma dedicação especial ao apresentar escritores pouco conhecidos. Neste ano, este tipo de revisão política do mercado rendeu o convite ao português J. Rentes de Carvalho, 82 anos, selecionado pelo curador Mário Hélio para participar da mesa "Palavras: as implicâncias, as preferências e as esquisitices". Rentes não tem nenhum livro publicado no Brasil, embora tenha escrito mais de 10 obras em português. Ele fez o serviço militar em Lisboa e foi obrigado, por razões políticas, a abandonar Portugal; viveu então no Rio de Janeiro, São Paulo, Nova Iorque e Paris, até se fixar em Amsterdã em 1956. Essa condição de trânsito e revisão memorialista de tradições está presente em sua literatura; em obras como "La coca" e "A amante holandesa" Rentes escreve histórias de emoções discretas, em que lembranças e costumes nacionais são meios para repassar sensações. Nesta conversa o autor fala sobre a língua portuguesa, que deixou de ser sua forma primordial de comunicação, e temas como tempo e amor em seus livros.

Na Fliporto o senhor vai falar sobre o material para a construção literária, as palavras. Gostaria de saber primeiro se tem, como sugere o título da mesa, "preferências" ou "esquisitices" sobre certos termos da língua portuguesa.
Nem preferências, nem esquisitices. As palavras são instrumentos de que necessito. Acontece, claro, que uma se adapte melhor ao que quero dizer, mas que outra possua um som ou um "colorido" mais interessante. De modo geral a "preferência" ou a "esquisitice" que lhes posso atribuir deixa de ser tomada em consideração se o sentido ou o decorrer da história o exige. A qualidade vem primeiro, para as idiossincrasias pessoais põe-se o travão a funcionar. Pessoalmente, em matéria de preferências, enfrento como escritor o problema particular de que, sendo poliglota, e há mais de 50 anos a minha língua corrente seja o holandês, me aflige, por vezes, que certas palavras estrangeiras me "sirvam" melhor do que as da minha língua-mãe.

Como é sua rotina de escrita, a relação com as palavras e o processo de criação?
As palavras é que se relacionam comigo, mas, francamente, não faço ideia de que modo. E isso de rotina de escrita e processo de criação, ultrapassa-me. Imagino uma história (estória, se quiser), sento-me a pensar, escrevo o que penso, reescrevo, corrijo, volto a corrigir, gasto anos nisso. Nada de especial ou esotérico. Só trabalhinho, muito trabalhinho.

O que acha do processo de unificação das línguas em português? Li seus livros em português de Portugal e pensei que, caso fossem adaptados para o brasileiro, iriam perder algo de tradição. Acha que podemos ser compreendidos sem a unificação?
Claro que sim, e nunca a unificação será  possível. Temos duas línguas com a mesma  raiz, e é bom e enriquecedor que se mantenham as diferenças. Desde menino li boa porção de autores brasileiros, e continuo a ler, escrevi uma tese sobre "Menino do Engenho" de José Lins do Rego; Graciliano Ramos, Machado de Assis, o grande Guimarães Rosa, Trevisan, Bandeira, Vinicius, não sei quantos mais, a todos sou devedor. Do mesmo modo seria bom que no Brasil houvesse muita gente a ler autores portugueses, o que certamente contribuiria para melhor conhecimento mútuo.

Você morou em Portugal e, boa parte de sua vida, na Holanda - fato que entra em seus livros. Existe fronteira entre realidade e ficção?
Não há fronteiras, há osmose, e para complicar a questão tudo se dilui e funde, em certo momento nem o autor consegue saber se é ele próprio, ou se se transformou no outro e nos outros.

Em "La Coca" existe um interessante exercício narrativo: parte significativa do enredo permanece sem explicação direta. Diria que é uma marca de estilo, um interesse por narrar através da sugestão?
Um dos grandes pecados de quem escreve é, por vezes, ter a ideia de que o leitor é um bocadinho fraco de espírito, e tudo se lhe deve explicar. Bem ao contrário, são muitos os leitores mais inteligentes e mais sensíveis que o autor. Explicar e explicitar é o equivalente de fazer a papinha para o bebê, supondo que ao leitor ainda faltam dentes para mastigar a prosa. Aliás, muita dessa prosa, mais das vezes nem o esforço de engoli-la se justifica.

Já em "A Amante Holandesa" existe uma história de amor em que o tempo também é importante. O que diria sobre o tema “amor” em seus livros?
Diria que é um tema funcional, e que raro tenho abordado. E quando o abordo é com o cuidado de, ao contrário do sapateiro da conhecida estória, não ir além da chinela. É tema que, talvez mais do que todos, e refletindo o que Mário Vargas Llosa intitula “a civilização do espetáculo" a literatura tem banalizado, a ponto de que o que deveria ser tratado como um sentimento superior e exclusivo, essencial e querido em todos nós, é tantas vezes rebaixado e reduzido à animalidade.