Em seus momentos discretos de comédia, pequenos comentários de humor
social bem colocados no meio de uma ficção científica, o filme de Michael
Crichton revela o protótipo do jeca contemporâneo; a pessoa rica que,
precisando fugir da realidade burocrática, paga muito dinheiro para
experimentar caprichos de algum período histórico reconhecível pelo que há de
mais evidente (Roma, Europa Medieval, Velho Oeste), vivendo o aspecto pitoresco
de um passado vagamente familiar. Gastam uma fortuna para se parecer com
nativos, usando roupas de guerreiros, caubóis ou princesas, sem se interessar
necessariamente pela cultura daquele período, apenas por uma ideia exótica de
fantasia étnica - "ser" um xerife, um cavaleiro, para preencher a volúpia do desejo. A história é sobre um parque de diversões
povoado por robôs que agradam hóspedes, máquinas submissas controladas para
suportar desejos reprimidos (assassinato, sexo). Crichton trata seus
personagens como idiotas, uma curiosa ausência de protagonista bravo. Há cenas
que sugerem a iminência de um mal estar; algo acaba dando bastante errado, os
cientistas não conseguem mais controlar as máquinas, que se rebelam de forma
bruta contra os hóspedes. A violência é filmada em câmera lenta, ressaltando a
impressão de espetáculo terrível, deixando um gosto amargo de vazio.
quarta-feira, 8 de janeiro de 2014
terça-feira, 7 de janeiro de 2014
#6 The terminator (1984)
James Cameron é um dos cineastas que defende a tecnologia como alternativa para intensificar as possibilidades do cinema, criando histórias que se complementam com incentivo da cenografia, projeção ou interferência digital na imagem. Seu primeiro sucesso, em 1984, sugere a ambição por tecnologia como um fator essencial para a concepção do filme, apresentando decisões estéticas que parecem ousadas para o alcance técnico do período. Arnold Schwarzenegger é um monte de músculos e ferro, um robô assassino do futuro, uma máquina que tem apenas uma missão, matar Sarah Connor e quem estiver no caminho. É mais ou menos como os vilões de John Carpenter, um grande mal que segue apenas em frente e não responde à razão. Tem poucas falas e todas parecem gradualmente mais interessantes por causa do sotaque e da maneira absolutamente amadora da pronúncia e do gestual, dados que contribuem para a formação de um agradável ambiente de filme B. É o tipo de personagem que se repete em outros filmes brutos dos anos 1980, como Rambo ou Predador, um assassino cuja atuação extrema ignora a existência da lei. Indícios do gênero horror e atmosfera de ficção científica fazem deste filme um exemplo da habilidade de contador de histórias de Cameron, um projeto que os anos parecem agir à favor da criação de fãs que parecem interferir no tamanho e alcance desse arrasa quarteirão.
segunda-feira, 6 de janeiro de 2014
Sopros de mistérios da existência
O autor catalão Enrique Vila-Matas costuma escrever histórias que compartilham uma unidade reconhecível. São enredos diferentes, protagonizados por personagens distintos, mas que investigam a mesma sensação, a ideia de que a literatura se estende de maneira difusa e afeta a realidade; a página como rastro de um movimento que segue de forma contínua. Seus principais livros apresentam alegorias que buscam no aspecto negativo (falha, morte, desaparecimento) um jeito irônico de superar traumas e compreender o ato de criação, o instante decisivo da produção literária.
Sua obra mais recente a entrar no mercado editorial brasileiro é "Exploradores do abismo" (o lançamento original, na Espanha, foi 2007). É um livro em que Vila-Matas apresenta 19 narrativas curtas baseadas essencialmente em temas presentes em textos anteriores: o vazio, o anonimato, o desaparecimento, o erro, as trocas necessárias entre vida e literatura. Os personagens, alguns deles escritores, reais ou inventados, não fogem do escuro que os cerca, do abismo existencial, ao contrário: se jogam em busca de algum tipo de experiência ou conhecimento redentor.
A definição "livro de contos" parece não sugerir todas as leituras possíveis; Vila-Matas apresenta fragmentos creditados a outros autores, escreve como um narrador no processo de criação, analisa escritores e livros específicos, insinuando um tipo de crítica literária através da ficção. Os livros do catalão possuem esse aspecto de que a literatura é como uma memória contínua, que permanece viva em novos autores, desenvolvendo enredos de ficção através do passado literário (foram personagens em romances anteriores do autor, entre outros, Robert Walser, Franz Kafka e Fernando Pessoa).
O personagem-narrador que surge em alguns contos é um produto de ficção, mas seus comentários parecem oferecer alguma perspectiva sobre a obra e os bastidores do trabalho de Vila-Matas. Ele escreve, por exemplo, no conto "Das tripas coração": "Há um ano voltei a escrever contos, mas sem perceber que na verdade continuava com os hábitos de romancista. Continuava utilizando um tempo moroso, nem um pouco adequado para a narrativa breve". É uma frase que motiva certa ambiguidade em relação ao que é ferramenta de ficção ou revelação do ofício.
Nos momentos do texto em que o termo "ficção" parece se adequar, fica evidente a fluência do texto de Vila-Matas, a maneira como o autor cria enredos, situações dramáticas e personagens complexos. Essa sensação parece forte, por exemplo, no conto "Menino", em que um pai explica a relação difícil com seu filho, detalhando ressentimentos que duram 60 anos, revelando que ele é "um falso explorador do enigma do mundo, o ser mais superficial da terra"; descrição perfeita para os personagens de Vila-Matas - falhos, em busca do entendimento de mistérios percorrendo caminhos menos óbvios.
Serviço
"Exploradores do abismo", de Enrique Vila-Matas
Editora: Cosac Naify, 320 páginas, R$ 45
#5 Point blank (1967)
Não apenas o estilo de um diretor interfere na evolução de um gênero, mas também a própria construção cultural de uma época, as perspectivas sociais, políticas e econômicas de um determinado período. A estética policial, que nos anos 1940 esteve atrelada a detetives que ignoravam limites éticos para derrotar chefes do crime, a mulheres cínicas claramente mais espertas do que os homens, passou por modificações que parecem revelar informações de cada período. Em 1967 John Boorman filmou um thriller policial que hoje parece sugerir, tanto na forma quanto no conteúdo, pensamentos da década. O novo vilão não é um homem que domou bandidos à força e espalhou medo nas ruas, mas a "corporação", a "organização", uma instituição sem nome que parece dominar economicamente a sociedade, um organismo vivo cujo topo pode ser modificado, mas a essência permanece entranhada numa noção implacável de poder. Lee Marvin é traído por seu parceiro de crime, sua mulher o abandona pelo canalha, ele é deixado à beira da morte; um homem destruído emocionalmente. Sua motivação é recuperar a quantia exata que foi roubada, U$ 93 mil, matando criminosos no processo. O filme tem a identidade dos anos 1960 em sua construção técnica, sendo fortemente influenciado pelas renovações estilísticas promovidas por diretores da Nouvelle Vague. A montagem se torna acelerada de acordo com o ritmo do enredo, tempos diferentes se misturam, fatos essenciais são sugeridos através da sucessão de imagens rápidas e posicionamento de câmera que foge ao rigor tradicional da gênese do noir, nos anos 1940 - sintomas que colocam o filme como exemplar de sua época ao mesmo tempo em que identifica sua relevância para a história do cinema.
sexta-feira, 3 de janeiro de 2014
#4 Only god forgives (2013)
O material de publicidade (trailer, cartaz) parece sugerir que Ryan Gosling é o protagonista, mas o roteiro se esforça em sabotar a presença do ator em cena, criando exatamente 17 falas para seu personagem em 1h30 de filme, e uma única variação de expressão em seu rosto, a ausência de sentimento, a cara de paisagem. Nicolas Winding Refn parece mais interessado em sua pesquisa de estilo, na confirmação histriônica de uma suposta autoria visual, trabalhando os movimentos de câmera, a luz e o departamento de arte ao ponto em que não há naturalidade, apenas planejamento. É a partir da técnica que o diretor tenta desenvolver os personagens. Há um policial que parece ser o real foco de interesse, Chang, homem pequeno que corta braços num tipo de julgamento olho-por-olho, além de talento promissor no karaokê. A possibilidade de filme sensorial, ou de filme de atmosfera, que abdica a narrativa clássica para exercer uma encenação a partir de certo lirismo, parece uma necessidade progressivamente opressora e incômoda. É difícil imaginar uma resposta emocional se o filme não parece interessado em oferecer envolvimento dramático. O protagonista silencioso de "Drive", um herói cujo sentimento estava evidente em suas ações, torna-se uma espécie frágil de homem sem rumo, guiado por uma noção estranha de dever familiar. Sua mãe adorável, Kristin Scott Thomas, chama a namorada do filho de "depósito de porra" num jantar, vilã cujo exagero parece dar fôlego ao enredo. No geral a impressão é que as emoções são fabricadas pela técnica, parecem se esconder em um passado profundo não concretizado na imagem. É preciso paciência e boa vontade, talvez em excesso, para procurar o que torna essa história especial.
quinta-feira, 2 de janeiro de 2014
#3 Drive (2011)
Ryan Gosling interpreta o herói de ação clássico,
fala menos do que o necessário, age com brutalidade e eficácia, salva inocentes
de perigo eminente; parece guiado por um sentido de honra que não é explicado
pelo filme. É capaz de violência excessiva, atrocidades filmadas com dedicação e certo
prazer por Nicolas Winding Refn. O passado desse protagonista sem nome - opção
que parece ressaltar uma herança do faroeste de Clint Eastwood, seus personagens brutos não
identificados, trocando apenas o cigarro do canto da boca por um palito -, é
projetado apenas na cabeça do espectador, admirável perspectiva de construção
de personagem. Características do filme policial são reviradas, expectativas do
gênero são gradualmente reformuladas. No centro parece estar certa admiração
pelo cinema americano dos anos 1970, carros poderosos, máquinas cuja velocidade
é em alguma medida alegoria para o personagem, homem de ação em fuga. Os
momentos de choque, os instantes em que o filme ameaça transcender limites,
arriscar o salto de fé para algo estranho e pessoal, ocorrem quando Refn
experimenta um tipo de assinatura de estilo através do som, das atuações e da
câmera lenta - especialmente na representação da morte como evento espetacular
e possivelmente fotogênico. São ideias que modificam cenas
essenciais, transformando certas sequências decisivas em movimentos inesperados
de cinema.
quarta-feira, 1 de janeiro de 2014
#2 Take shelter (2011)
O fim do mundo aparece nos sonhos de um homem comum, que reage em
defesa de sua mulher e filha. O filme de gênero, neste caso a destruição da
humanidade, surge em cenas curtas guiadas por um senso gradual de horror,
segmentos que modificam a percepção inicial sobre a aparência de realismo em uma
pequena comunidade conservadora dos Estados Unidos e insinuam a possibilidade
de um mal estar iminente. São sequências que sugerem desamparo através do som e
de um certo rigor formal, sentimento que incentiva o protagonista a agir de forma
gradualmente obsessiva e perigosa. O pesadelo de um futuro sombrio está fora da
realidade aparente; motiva a ação sem confirmar sua real natureza. Apesar de
aliviar um conteúdo provocador, podando certas consequências
extremas, violentas ou abusivas, deixando seu filme no tom moderado, Jeff
Nichols parece ter prazer na construção de uma atmosfera reconhecível do gênero
fim do mundo, usando as ferramentas conhecidas dessa estética para alterar a perspectiva sobre um pequeno drama familiar, insinuando análises sociais no contexto
de um possível apocalipse.
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