sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Adrenalina fugaz sabor pólvora


Hugo Viana

Depois de apresentar no primeiro filme, lançado em 2008, tudo o que legitima o gênero ação, "Busca Implacável 2" entra em cartaz oferecendo exatamente as mesmas opções; em todas as cenas ocorre algum tipo acelerado de perseguição de carro, tiroteio, explosões ou mortes. E briga, muita briga. Poucos momentos se referem a um tipo silencioso de cinema, ferramenta evitada neste filme de Olivier Megaton (diretor de outro filme movido à gasolina e pólvora, "Carga Explosiva 3").

O protagonista continua sendo Bryan (Liam Neeson), ex-agente da CIA, agora pai preocupado com as aulas de direção da filha. O vilão é Murad (Rade Serbedzija, especialista em interpretar criminosos do leste europeu); ele quer vingar o filho, sequestrador de jovens mulheres do primeiro filme, assassinado por Bryan. Os planos de vingança de Murad envolvem não apenas torturar o ex-agente, como também matar a família dele, enquanto estão em férias exóticas em Istambul.

O roteiro é mínimo e fornece as brechas para ação. Infelizmente para Murad e seus capangas, Bryan é um tipo bruto de super agente, não costuma perder brigas ou errar tiros, características recorrentes no bando inimigo. Tudo se torna um pouco mais fácil porque os vilões são indiferentes às capacidades acima da média de Bryan; deixam ele numa sala sozinho, com braços amarrados, enquanto estão na outra sala, bebendo cerveja e assistindo futebol.

Esse enredo frágil dura pouco, 90 minutos, e poderia ser ainda mais curto, devido à enorme eficiência do protagonista. Nesse pouco tempo, talvez o destaque seja a maneira como Megaton apresenta essas capacidades, criando um roteiro de ação frenética que usa de forma inteligente o som e a montagem de cenas paralelas para intensificar o clima de tensão.

São sequências que representam o prazer desgastado que o gênero ação oferece, a capacidade de recriar com a câmera uma vontade cruel de ver explosões espetaculares como apenas o cinema norte-americano parece capaz de fazer. A existência de um filme anterior, bem feito, com essas mesmas motivações, parece colocar dúvida na real necessidade de uma segunda parte.

Depois de tantos anos sendo usada como um tipo de guia, a divisão no cinema por gêneros se tornou uma ferramenta útil para alguns diretores exercitarem a criatividade, mexendo em fórmulas que depois de décadas de uso adquiriram rigidez. "Busca Frenética 2" representa o exato oposto: é formado por precisamente todas as exigências do gênero, um filme de ação bem executado que será devidamente arquivado e esquecido.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Violência extrema e sem propósito


Hugo Viana


Filmes com quantidade extra de violência costumam causar polêmica. Po isso, é bom avisar aos espectadores que preferem não ver corpos sem pele, pedaços de cérebros espalhados no chão ou o efeito devastador de balas tamanho G no rosto humano, em câmera lenta, que "Dredd 3D", dirigido por Pete Travis, talvez não seja o programa adequado.

Este remake, sem qualquer vínculo com o original de 1995, é autêntico filme de ação - enredo mínimo, como os suspenses de John Carpenter ("Assalto à 13ª DP", de 1976, parece referência) e tensão o suficiente para prender a respiração e segurar firme na cadeira. A história ocorre num futuro em que efeitos da radiação modificaram a geografia norte-americana, transformando o país numa cidade gigante. A violência social é controlada por "juízes", policiais que têm autonomia completa de decisão sobre certo e errado.

Como geralmente acontece em filmes com futuro distópico, os inimigos são traficantes que tentam dominar a cidade com um novo tipo de droga. A chefe é MaMa, mulher que estreou no crime desfigurando a anatomia sexual de um chefão com a boca, e depois continuou matando com prazer violento todos os integrantes das gangues rivais. Ao mesmo tempo, em toda sua capacidade brutal, MaMa é tão violenta quanto os juízes, os supostos heróis.

Nesse sentido, por tratar de um tema político, o filme expõe um tipo polêmico de ideologia: apresenta policiais com armas destruidoras e que têm o poder de julgar imediatamente criminosos, definindo quem merece prisão ou a morte imediata. Esse tipo de estado crítico é apresentado como normal, esses "juízes" são tratados como vencedores carniceiros; o filme parece ignorar que a existência de um sistema assim sugere abandono total de sentimento, o que aparenta ser um certo despreparo moral para o poder de sugestão do cinema.

Na verdade, é curioso sequer existir caos social nessa realidade vigiada por essa equipe policial; em meia hora de filme, dois juízes matam, na área de maior índice de criminalidade, mais de 50 bandidos, sem um arranhão qualquer. Poderiam poupar filme e encerrar a carreira criminosa de todos os bandidos da cidade sem muito esforço.

É um tipo de violência estilizada que atualiza de maneira irregular o cinema de Sam Peckinpah, diretor de faroestes brutos nos anos 1970 que através do recurso da câmera lenta nas mortes parecia interessado em observar os efeitos físicos e morais da violência; em "Dredd 3D", existe apenas o prazer sádico de filmar sangue e dor, a impressão de que a resposta para revolta social é matar, prática moral duvidosa. 

É uma pena que "Dredd 3D" funcione exclusivamente como filme de ação, uma produção claramente bem feita do ponto de vista técnico, especialmente os efeitos visuais e a edição sonora (o recurso 3D, aparentemente de pouca utilidade, mostra seu real valor numa das cenas mais violentas, quando, sob efeito da droga, que faz tudo ficar em câmera lenta e com um intenso filtro de cores, as mortes parecem ainda mais brutais), mas ao mesmo tempo retirando qualquer responsabilidade social, demonstrando indiferença sobre a necessidade de refletir sobre a própria realidade criada.

Humor com toques fantásticos


Hugo Viana


Crianças solitárias costumam criar amigos imaginários, desenvolver um tipo de camarada para segurar a mão em noites de trovoadas ou uma companhia para tardes quentes de tédio. Em "Ted", do diretor estreante Seth MacFarlane, a premissa do amigo irreal vem como comédia de toques fantásticos. Em uma noite de Natal especialmente triste, nos anos 1980, um garoto, deitado na cama abraçado com seu ursinho de pelúcia, deseja que seu brinquedo se torne vivo. Passa uma estrela cadente e na manhã seguinte o urso começa a falar.

Então o filme coloca essa fantasia nos moldes da realidade, sendo esse choque o mecanismo da comédia; o urso, chamado Teddy, se torna atração midiática, dá entrevistas, é capa de revistas, vira, de maneira comicamente compreensível, curiosidade nacional. Aplicar um sentido de normalidade para algo fora do comum parece o melhor truque do filme, é a ideia que rende as melhores piadas (Teddy numa entrevista de emprego ou conversando com jornalistas gera facilmente risadas honestas).

Passam 27 anos, esse ursinho amigo e carinhoso se transforma num adulto, mantendo seu cômico tamanho mini, torna-se admirador de prostitutas e apreciador de diferentes ofertas de maconha: "Pânico do gorila", "Eles estão chegando!" e "Isso é permanente". Teddy é o clichê do homem bruto, abre a geladeira apenas para pegar cerveja, conversa quase exclusivamente sobre mulher e tem como meta diária diversão sem muita medida. Aplicando uma espécie imatura de humanidade a um boneco, Seth mostra senso de humor.

O menino (Mark Wahlberg) também cresceu, tinha 12 anos quando fez o pedido, agora tem 35, embora não demonstre qualquer indício de maturidade. É esse o charme do filme: o tema é a falta de habilidade para amadurecer, entrar numa nova fase da vida, coisas como comprar apartamento, manter relacionamento sério. A dificuldade em conseguir tudo isso vem na forma de metáfora, um urso de pelúcia, aspecto marcante da infância, sugerindo vínculo com o passado, a negação da vida adulta.

Embora essa ideia seja simples e inteligente, o filme parece se esforçar para não entregar qualquer momento de reflexão; são muitas cenas que legitimam parentesco entre "Ted" e filmes como "American Pie" ou "Se beber não case", franquias dedicadas ao humor de extremos.  "Ted" não é bem um filme politicamente correto, as piadas vão a lugares sensíveis, ao Oriente Médio, gostos da classe média, talvez preconceito disfarçado de comédia imprudente. É um tipo criativo de enredo que tropeça com alguma frequência em aspectos banais da comédia norte-americana média.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Para integrar a leitura à vida interior


Hugo Viana


Alguns autores transformam a ideia de "literatura pessoal" em um meio para, a partir de suas próprias histórias e experiências, falarem sobre temas mais amplos. Em "Rostos na Multidão" (Alfaguara, 168 páginas, R$ 29,90), primeiro romance de Valeria Luiselli, 29 anos, a escritora mexicana releva seus métodos de escrita, criando um enredo que mistura fatos reais à alegoria literária. O livro tem uma estrutura que alterna longos e curtos parágrafos, como se o fôlego variasse de acordo com a respiração dos personagens; nessa divisão, surgem trechos narrados por duas pessoas separadas pelo tempo e espaço, mas emocionalmente próximas. Um deles é uma mulher, mãe de dois filhos, que trabalha traduzindo livros que embora tenham valor literário parecem ignorados pelo mercado editorial. Ela pretende escrever sobre a juventude em Nova Iorque e a obsessão pelo poeta mexicano Gilberto Owen, que existiu de fato e ainda hoje permanece pouco conhecido - é dele a segunda voz do enredo. Nesta entrevista, a autora comenta sobre o que há de biográfico na história e reflete sobre a literatura atual do México. 

Gostaria que falasse sobre a narradora do livro. Ela se parece com você? Em especial pela maternidade (ou talvez a noção de família) e o interesse por literatura. 
Não é uma novela autobiográfica - embora exista uma certa "matéria prima" que venha de minha própria vida. Mas é normal existir essa confusão. Aconteceram coisas certamente curiosas comigo depois desse livro. Há alguns meses, tive a honra de conhecer, aqui em Nova Iorque, o brilhante autor holandês Cees Nooteboom. Falamos durante várias horas e, em um momento, ele me perguntou o nome dos meus dois filhos. Eu disse: Mas só tenho uma filha. Ele, desconcertado, lembrou que em minha novela a protagonista tinha dois filhos, não um. Ficamos nos olhando por um momento - em silêncio - até que ele começou a rir. (Nooteboom é certamente um mestre da autoficção).

O que diria sobre sua relação com a literatura? Por exemplo, o que representa um personagem como Owen? Parece simbólico ele ser um poeta antigo e esquecido...
É uma boa pergunta. Suponho que poderia dizer que sou, antes de tudo, uma leitora. Minha escritura, então, está sempre mediada pelos livros que leio. Há autores que entraram em minha imaginação com força particular. Owen é um deles, por sua poesia e novelas, mas sobretudo por suas cartas. Li compulsivamente as cartas que ele escreveu nos anos 1920 sobre sua vida no Harlem. Eu estava, nesse momento, vivendo no Harlem. Ele se converteu em uma espécie de companhia, uma voz que mediava a relação entre o mundo e eu - e então, naturalmente, ele se converteu em personagem do livro. 

A certa altura, você escreve: "Meu marido lê alguns destes parágrafos e me pergunta quem é Moby. Ninguém, digo, Moby é um personagem". Esse trecho parece revelar uma realidade literária feita a partir dos moldes de uma realidade externa à literatura. Como vê essa divisão? 
Não creio que exista uma divisão real entre uma coisa e outra. Claro: a dor do parto e a dor de uma morte na família se experimentam de forma distinta ao parágrafo mais sublime ou ao mais perfurante. Mas a dor do parto está, também, atravessada por alguma leitura que fizemos, e nossa experiência de morte é inseparável das muitas mortes que encontramos nos livros. Há pessoas que dividem categoricamente a vida real da leitura. É uma divisão absurda porque a leitura é integral à vida interior e, assim, à maneira como nos relacionamos com o mundo. O que lemos não ocupa um lugar separado - nem privilegiado nem inferior - do que vemos, ouvimos ou experimentamos por qualquer outra via. 

O livro tem uma estrutura peculiar: alterna breves passagens que falam de diferentes momentos e situações. Como chegou a essa construção narrativa? 
A forma desta novela responde a um ritmo de pensamento e, digamos, a um tipo de respiração que não pude evitar durante a época em que escrevi. Mas, claro, eu não descobri isso na primeira tentativa. Não foi fácil encontrar a forma exata para contar a história. Passei anos em busca e provas falharam para eu deixar de experimentar com formas que não eram honestas. Com honestas quero dizer que não respondiam a instintos profundos em mim, que simplesmente ensaiavam estilo. Alfonso Reyes dizia que há três tipos de escritores: os que pensam antes de escrever, os que pensam enquanto escrevem e os que pensam depois de escrever. Em meus melhores momentos, pertenço à segunda categoria. A forma dessa novela é produto de minha fidelidade a essa condição: pensar enquanto escrevo. 

Gostaria que falasse um pouco da literatura mexicana atual. Aqui no Brasil foram bem recebidos Juan Pablo Villalobos e Mario Bellatin - autores que, de maneiras muito diferentes, se referem à realidade social e política do México. Podemos falar de unidade na literatura contemporânea do México? 
É curioso, eu pensaria em Bellatin e Villalobos como dois exemplos dos extremos opostos da (boa) literatura mexicana atual. Ambos são bons escritores - e inteiramente distintos. E não, não creio que se possa falar de uma unidade na literatura contemporânea do México. É certo que existem muitos escrevendo sobre a "era do narco" - as famosas "narconovelas". Mas há muitos também, e muito bons, que não participam dessa tendência (que, no meu parecer, é passageira). 

Diferente desses dois escritores, seu livro não parece interessado na discussão de crises políticas e sociais. Como vê o tratamento desses temas na literatura? A literatura pode (ou deve) afetar a realidade?
Este é um tema que me ocupa. Dou voltas - e escrevi um par de ensaios críticos a esse respeito. Creio que a palavra chave que você usou é "afeta". Creio que a literatura não tem o dever de refletir uma realidade social particular, mas sim pode e deve, de alguma maneira, interferir nela - afetá-la. A mim não interessa falar da violência nas ruas. Me interessa a violência em outro nível - a violência passiva, silenciosa, brutal, entre as pessoas. México é um país em guerra - isso se reflete em todos os estrados da sociedade. Eu não falo de cabeças cortadas, drogas nem pistolas, mas sim da violência subterrânea. 

Este é seu primeiro livro, e vem sendo bem recebido. Ultimamente a literatura feita por jovens chama a atenção a partir da fixação pela idade e por listas (no Brasil, o recente lançamento da "Granta" em português causou alguma polêmica). O que diria sobre esse estado atual do mercado editorial?
Esse é um tema difícil, com diversas arestas. Creio que as listas, como a da "Granta" em português e em espanhol - que também causou certa controvérsia - ajudam a escritores cuja obra, de outro modo, não seria tomada em conta (nem dentro nem fora de seus países). Nesse sentido, são úteis. Por outro lado, creio que estar ou não estar numa lista, não determina o futuro de ninguém, por sorte. Meu caso - como o de muitos outros - é esse. Nunca apareci em nenhuma lista relevante, e contudo meu trabalho teve boa circulação, boa recepção entre críticos e leitores. O que importa é a qualidade do trabalho de um escritor. Todo o resto efêmero. 

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Nelson Rodrigues: o inventor da vida real


Hugo Viana


Nelson Rodrigues nasceu em 1912, no dia 23 de agosto, no Recife, e seu centenário celebra esse escritor a quem, nas palavras de Ruy Castro, autor da biografia "O anjo pornográfico", "uma espécie de imã demoníaco estava sempre arrastando para uma realidade ainda mais dramática do que a que ele punha sobre o papel". 

Em diferentes tipos de texto - escreveu crônicas, romances, peças teatrais e matérias para jornais - Nelson falou com emoção graúda sobre o cotidiano de brasileiros, escreveu a respeito de uma moral ambígua, debateu aspectos da liberdade individual, comentou as formas sinuosas da política. "Nelson obteve uma síntese de língua escrita inédita, ao mesmo tempo culta e informal", avalia o escritor Luís Augusto Fischer. "Ele enxergou tragédia onde um outro observador só veria drama ou banalidade. Soube encontrar dimensões que dizem respeito a todos, pela abordagem trágica, como nas peças, ou pela abordagem ensaística, nas crônicas", comenta. 

Nelson foi o quinto de 14 filhos - sua mãe, Maria Esther, queria 12 -, e ainda criança se mudou para o Rio de Janeiro. Começou no jornalismo, aos 14 anos, com fascínio particular pela cobertura policial, surpreendendo ao fazer reportagens que hoje seriam eticamente questionáveis: adicionava carga dramática aos relatórios que os repórteres traziam da rua, ficcionalizando casos de assassinatos ou, sua especialidade da época, pactos de morte entre jovens namorados (uma de suas frases mais conhecidas revela esse fascínio: "O amor é eterno e, se acaba, não era amor. Quem nunca sonhou morrer com o ser amado, nunca amou ou não sabe o que é o amor. Pouco amor não é amor"). 

"Todos os assuntos e os personagens de Nelson surgem nas páginas policiais", comenta o escritor e jornalista Raimundo Carrero. "Ele entendeu, através do jornalismo, o espírito dramático e trágico do povo brasileiro e explorou-o em melodramas emocionais e terríveis, com exageros e pantomimas", destaca.

Ainda no jornalismo, Nelson escreveu crônicas e folhetins que seriam, anos depois, reunidos em livros e admirados por tratarem, através do melodrama, de tradições brasileiras. Seus folhetins, gênero literário normalmente visto como menos relevante do que o romance, foram escritos a partir de pseudônimos femininos; suas crônicas ocupavam páginas de jornais e pareciam falar diretamente sobre (e para) o público leitor, mapeando costumes da vida urbana. 

"Acho que meu pai tinha uma necessidade desesperada de expressar o que ele sentia, o que observava sobre o mundo a sua volta", diz Sônia Rodrigues, filha de Nelson e também escritora, que organizou o livro biográfico "Nelson Rodrigues por ele mesmo". "Ele precisava contar as histórias que vivia, via, ouvia e contar do seu ponto de vista originalíssimo. Escrever 'para a gaveta' não satisfazia meu pai, ele precisava vir a público mostrar como ele via o mundo", relata. 


Baseado em fatos reais

Nos textos de Nelson, crônicas ou romances, existe uma certa unidade de estilo, a habilidade fascinante do contador de histórias; são enredos que sugerem, através do melodrama, um tipo amargo de humor, tendo como inspiração, talvez por uma herança do jornalismo, a dramaturgia autêntica dos subúrbios cariocas, os roteiros genuínos de casos reais, em textos que exaltam sexo, suspense e, de forma livre, situações que analisam criticamente o cotidiano brasileiro. 

"Seus contos dão gosto de ler pela linguagem, pela verve, pelo retrato de época e pela mobilização de fantasias sexuais ainda relevantes", diz Luís Augusto Fischer. "Mas suas crônicas, me parece, permanecerão por muito tempo como relevantes, pelo caráter ensaístico, pela mescla tão bem realizada de intuições analíticas sobre o Brasil e a época, golpes de autocrítica inteligentes e radicais, mais uma abordagem humorística inesperada", sugere o escritor. 

Um de seus livros de crônicas mais conhecidos é "A vida como ela é...". Em 1950, Samuel Wainer, dono do jornal Última hora, queria uma coluna em que Nelson escrevesse, com toque ficcional, histórias baseadas na vida real, enredos que falassem sobre pessoas comuns com interferência de técnicas de criação literária. Como resultado, textos que parecem relatos vivos sobre a rotina de brasileiros, de famílias tradicionais, da classe média, anônimos que enfrentam, de forma natural, no dia a dia, dramas, constrangimentos ou emoções que geram empatia. 

Seus personagens, das crônicas ou romances, instigam reconhecimento mesmo com atitudes surpreendentes, que insinuam o que há de bom e hediondo no ser humano; dessa forma, Nelson parece expor, com algum drama e humor, o cinismo moral de sua época, ratificando um conceito de certa forma velado - a sugestão de existe uma moral para a rua e outra para a vida privada. "Meus personagens são tirados da vida real e da vida irreal", disse Nelson, numa de suas entrevistas. "As pessoas se chocam porque se reconhecem. Elas se sentem despidas", falou o autor. 

Quando escreveu com seu pseudônimo Suzana Flag, nos folhetins "Meu destino é pecar" e "O homem proibido", Nelson explorou motivações que o aproximam da narrativa popular, do tipo de texto que comunica com o maior número possível de leitores; amor, ciúme, casamento e morte são permanências que parecem resumir uma intensa e comovida relação entre realidade e literatura. 

"O jornal foi a grande escola de Nelson", diz Carlos Motta, escritor e mestre em literatura com dissertação sobre o autor. "Naquela época o jornalismo era muito diferente. A qualidade do redator era medida pela fertilidade de sua imaginação, que lhe possibilitava desenvolver com detalhes fictícios e saborosos, os inúmeros casos de assassinato, adultério e suicídio que ocupavam as páginas policiais. O estilo de redação se caracterizava pelo excesso de metáforas e adjetivos, sempre caros a Nelson em seus escritos posteriores. A expressão 'idiotas da objetividade', uma de suas mais célebres, foi cunhada para caracterizar a obtusidade dos representantes da nova imprensa que surgia", avalia Carlos.


terça-feira, 21 de agosto de 2012

Ficção científica em refilmagem pouco inspirada


Hugo Viana


No cinema contemporâneo a palavra "remake" (refilmagem) sugere debates sobre a originalidade como critério único de avaliação, a memória ou permanência do cinema do passado. Entra hoje em cartaz mais um filme para essa lista: "O Vingador do Futuro" (EUA, 2012), com o mesmo nome do original, de 1990, dirigido por Paul Verhoeven e protagonizado por Arnold Schwarzenegger, baseado em texto de Philip K. Dick. 

No enredo, Douglas Quaid (Colin Farrell) é um operário cansado da rotina, com sonhos recorrentes sobre fuga e conforto. Na geografia do filme existem duas regiões habitáveis: a Federação e a Colônia, um visualmente inspirado universo apocalíptico. O que separa as duas é um simbólico elevador que funciona como meio de transporte, chamado "A Queda", e estabelece de forma concreta a hierarquia social. Um grupo de resistentes compromete essa estrutura com ataques terroristas contra a Federação, e a guerra parece iminente. 

É nesse contexto que Douglas conhece uma empresa, chamada Recall, que tem como objetivo inserir boas memórias na mente das pessoas, proporcionando a oportunidade de criar ilusões e implantar, por exemplo, a lembrança falsa de sucesso nos esportes ou fama cinematográfica. Douglas curiosamente escolhe ser um agente terrorista, um espião que irá derrubar o governo da Federação, mas quando começa o tratamento a sala é invadida por policiais e surge a dúvida: o que vemos é real ou é efeito da Recall?

A história então passa a falar sobre o choque entre realidade e imaginação, cotidiano e sonho, colocando em dúvida a real natureza dos acontecimentos. Essa primeira meia hora parece o melhor momento do filme, sugerindo um clima vago de suspeita, com personagens que insinuam culpa através de um olhar desconfiado ou movimentos discretamente ambíguos. São detalhes que parecem acentuar a impressão de há algo estranho acontecendo (as referências passam necessariamente por filmes como "Matrix", "Minority Report" e "Blade Runner"). 

Colin Farrell se encaixa bem nesse tipo mediano de filme, numa espécie de interpretação que é mais física do que propriamente dramática, embora quando algum drama seja necessário o ator falhe sob qualquer ponto de vista. Embaixo de chuva sem camisa, correndo de carros voadores ou explodindo um pelotão de robôs, Farrell tem a pouca versatilidade emocional que consagrou Schwarzenegger no papel original, embora naquela ocasião existisse uma espécie de comédia rudimentar, ausente neste lançamento. 

Depois de boas sequências iniciais, tudo parece perder interesse e a grande motivação é a vingança, o conflito armado, a encenação de tiros e explosões. O aspecto político do enredo é apressadamente (e ingenuamente) resolvido, e o que se torna principal no enredo é um drama paralelo sobre o passado amoroso de Douglas, cenas dispensáveis de dramaturgia frágil.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Jorge para sempre amado

Hugo Viana



Em agosto Jorge amado (1912-2001) completaria 100 anos, e, como normalmente acontece em datas especiais, parece importante refletir sobre o autor, pensar a respeito de sua história e obras; neste caso, não apenas porque se trata de um escritor ainda relevante e inspirador, mas também porque estudar sua trajetória no cenário cultural brasileiro sugere meios para entender a história informal do Brasil, pela maneira como ele registrou contradições políticas, paisagens exuberantes e moral ambígua da sociedade nacional. 

Jorge Amado nasceu na Bahia, em Itabuna, mas muito cedo se mudou para Ilhéus, município vizinho que serviu de ambiente para alguns dos seus romances. Embora não se considerasse um autor inventivo (certa vez disse: "Pois sendo, como sou e se sabe, limitado no que se refere à criação literária não sei trabalhar senão a realidade que conheço por tê-la vivido"), Jorge é um dos escritores mais lidos do Brasil, com mais de 30 obras lançadas, além de estudos publicados que avaliam sua repercussão no meio político e cultural. 

"Sou ficcionista de dois temas únicos", escreveu Amado no livro "Navegação de Cabotagem: apontamentos para um livro de memórias que jamais escreverei". "As terras do sem fim do cacau, a vida popular da cidade da Bahia, voltejo em torno deles, repito cenários, personagens, emoções", indicou o autor. São assuntos recorrentes em sua literatura: tipos humanos populares de moral duvidosa e uma paisagem boêmia ou interiorana, ao mesmo tempo romântica, popular e bruta. 

Mesmo com essa repetição de assuntos, personagens e geografia, existe em seus livros um tratamento único que remete, através de comicidade dramática e indireta, a aspectos universais do comportamento humano. "Foi falando de uma Bahia que seria alegoria do Brasil que ele conquistou os brasileiros e foi o autor mais lido e traduzido no estrangeiro - creio que hoje só perde para Paulo Coelho", comenta Anco Márcio Tenório Vieira, professor do Departamento de Letras da UFPE. "A universalidade de sua obra se dá não por aquilo que pode parecer exótico aos olhos do estrangeiro, mas por aquilo que revela de uma civilização que soube equilibrar seus contrários. A obra de Amado tornou-se universal porque ela encerra uma das grandes utopias do homem: a convivência e a interpenetração cultural de matrizes tão diversas", sugere.

Jorge Amado registrou com humor e paixão a relatividade moral que rege relações no Brasil, em personagens construídos com intensidade emocional. Em "Tieta do Agreste" (1977), a protagonista é expulsa da cidade por suas aventuras sexuais, delatadas ao pai por sua irmã mais velha, casta e meio reprimida, mas volta 26 anos depois como uma misteriosa senhora rica. Em "A morte e a morte de Quincas Berro d'Água" (1961), um respeitável cidadão abandona sua reputação ilibada para se juntar à malandragem boêmia e por isso é tido como 'morto' para a família, composta, nas palavras do 'morto', por "jararacas" e "bestalhões". 

"Amado, assim como Nelson Rodrigues, fala de uma sociedade que tem uma moral para a casa e outra para a rua", ressalta Anco. "Um Brasil que denuncia a prática imoral dos políticos, mas que pratica o jeitinho brasileiro no seu cotidiano. Um Brasil que se diz cristão, mas que não hesita em recorrer a uma mãe de santo para curar doenças ou fazer despacho para conquistar um amor. É a velha dualidade entre o Brasil real e o Brasil oficial. Um, mestiço; outro, que se quer europeu. 'Gabriela' mostra bem isso: o mesmo moralista e defensor dos bons costumes é também o que frequenta de noite o Bataclan", analisa.


Popular entre leitores
e ignorado na academia

Ao mesmo tempo em que Jorge Amado tem defensores de sua escrita, leitores que atribuem ao autor importância literária, a crítica acadêmica, um dos meios historicamente importantes de legitimação intelectual, não possui o mesmo nível de aceitação. "Jorge Amado nunca teve (e acredito que continua não tendo) a devida atenção da academia", opina Anco. 

O estilo de escrita de Jorge Amado o aproxima do "romance de 30", o romance regionalista. "Esse romance tem uma missão civilizadora e denunciadora. Civilizadora porque eles têm um projeto de Brasil: um país mais justo, a defesa de um Estado moderno, a tolerância religiosa, a crítica às elites patrimonialistas. Denunciadora porque eles não constroem um Brasil idealizado, como fizeram os românticos, mas um Brasil que chega ao século XX sem sanar entraves sociais, políticos e econômicos de uma sociedade escravagista e desigual", conceitua Anco. 

"Se comparada ao interesse que outros escritores dessa década despertam no âmbito universitário, como Graciliano Ramos e Guimarães Rosa, a produção acadêmica sobre Amado tem sido, na sua maioria, rarefeita, lacunar e assistemática, contrastando com a enorme repercussão nacional e internacional de sua produção literária", avalia Sônia Ramalho, professora do departamento de Letras da UFPE. "Indagações sobre essa lacuna apontam para um preconceito acadêmico, responsável pela avaliação negativa e redutora dos aspectos estéticos da obra, pela concessão do autor aos ditames mercadológicos através da exploração do exotismo e dos estereótipos populares e regionais, pelo sectarismo de sua produção militante", comenta Sônia. 

Esse desacordo entre popularidade elevada junto aos leitores e aparente descaso na crítica acadêmica pode ser explicado pela forma como o autor constrói seus romances, a maneira como escreve sobre os mesmos temas sem no entanto apresentar uma interpretação próxima ao que a academia defende como adequado. "A grande popularidade de Amado como escritor advém, em parte, da confluência entre o projeto estético e o político-ideológico, produzindo uma literatura voltada para as classes desfavorecidas, acercando-se de seus problemas, denunciando, embora às vezes ambiguamente, as mazelas e o subdesenvolvimento da nação brasileira no contexto coronelista da República Velha", reflete Sônia. 

Anco identifica uma importante distância entre o conteúdo dos livros do autor baiano e o pensamento que rege às reflexões acadêmicas. "Jorge construiu um olhar sobre o Brasil que não é exatamente o olhar que a academia deposita sobre o nosso país (a leitura de esquerda, marxista, tida durante muitas décadas como a leitura correta para se interpretar o Brasil). A esquerda, como boa filha de um projeto civilizatório europeu, nunca gostou de ver em um mesmo prato, por exemplo, a denúncia das injustiça sociais e o desregramento sexual dos brasileiros. Tudo isso tinha, aos seus olhos, um cheiro de exotismo, de pouca verticalidade crítica. A crítica aos livros de Amado têm algo de purismo ideológico, de uma dificuldade de aceitarmos como nós somos"

Frases (do livro "Navegação de Cabotagem")

São Paulo, 1945
Foram dizer a Dona Angelina, mãe de Zélia, que a filha dela tinha largado o marido para ir viver com o escritor Monteiro Lobato. Dona Angelina, coitada, endoidoi. 

Rio de Janeiro, 1957
Meu sobrinho Paulo, filho de Fanny e Joelson, é uma criança adorável - em minha exclusiva opinião, a dos demais é outra, negativa. Paulo, quatro anos, loiro, forte, genioso, de grossura impecável, não falha nunca. Bruto, responde mal, olha com raiva, fecha-se em copas, eu me divirto com sua má educação, com elogios a alimento, contra todos eu o sustento: apoio decisivo. 

Rio de Janeiro, 1963
O que a Academia, falo da Academia Brasileira de Letras, nos dá não é nem a imortalidade (sic!), nem a glória (puf!), nem sequer a respeitabilidade, nada disso. Nos dá apenas, e isso sim, é muito, paga a fatuidade, o transitório, o disparate, o que ela nos dá é a convivência, a amizade. 

Bahia, 1974
Filmagem de "Dona Flor e seus Dois Maridos", de Bruno Barreto, realizada numa tarde de domingo, dez vezes ao menos a mesma tomada foi repetida, pois a multidão reunida no largo para assistir entrava em delírio ao ver José Wilker - o Vandinho do romance - destacar-se de trás de uma coluna na porta do templo, nu em pelo, dar a mão a Sonia Braga dona Flor, que saía da igreja pelo braço de Mauro Mendonça, o farmacêutico Teodoro, descerem os três, de braços dados, felizes a ladeira - a gritaria, as vaias, os aplausos explodiam à visão dos quimbas de Vadinho, comprometiam o fundo musical, festivo, o som dos sinos. Bruno quase perde a cabeça, o povo gostou demais. 

Rio de Janeiro, 1979
Em Londres, o romancista peruano Mario Vargas Llosa me falara de seu intento: planeja escrever um romance sobre a saga de Canudos - e o escreve, "La Guerra del Fin del Mundo". Não me entusiasmei, mostrei-me reticente: um romance com o tema da guerra sertaneja, o Brasil dos beatos e cangaceiros? Temi que Mario fosse se meter em camisa de onze varas, pois sendo, como sou e se sabe, limitado no que se refere à criação literária não sei trabalhar senão a realidade que conheço por tê-la vivido, sou ficcionista de dois temas únicos, as terras do sem fim do cacau, a vida popular da cidade da Bahia, voltejo em torno deles, repito cenários, personagens, emoções. Daí ter me assustado com a notícia. 

Paris, 1991
O neto Jorginho, oito anos incompletos, pergunta à avó Zélia, 75 completos: Vó, você ainda transa com o avô?