segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Literatura, praia e pés descalços


Hugo Viana


Para o escritor argentino Alan Pauls, 53 anos, a melhor maneira de falar sobre temas complexos da história da América Latina, assuntos que confundem o senso moral e transformam a verdade em um conceito vago e abstrato, é através de aspectos banais, notas geralmente ignoradas em estudos austeros, detalhes que na aparente trivialidade parecem indicar contradições essenciais. Seu novo livro, "A vida descalço", reúne textos sobre dias ensolarados, a rotina desinibida na praia, regras de etiqueta no uso de roupas curtas num espaço público regido por um curioso e levemente canastrão senso de comunidade; a partir desse tema, no entanto, o autor expande suas reflexões, escrevendo sobre hábitos sociais dos anos 1960 e 70, comentando de maneira astuta motes políticos e culturais da América Latina. Pauls tem domínio do gênero ensaio: maneja palavras como artesão imprevisível, construindo com refinada carpintaria literária longas frases que saltam com liberdade por diferentes tópicos sem perder a ternura. Acompanham os textos fotografias que sugerem nostalgia doméstica, lembranças familiares, informando uma dimensão íntima da história. Nesta entrevista, o autor comenta motivações para a escrita e possibilidades criativas do ensaio. 

Como surgiu a ideia de escrever um livro a partir da praia? E uma curiosidade: como é seu comportamento na praia?
Foi um trabalho para uma coleção de ensaios sobre espaços públicos de uma editora de Buenos Aires. Mas a praia não foi minha primeira escolha. Antes pensei em lugares mais civilizados: salas de cinema, museus, bibliotecas, estações de trem. Alguém me sugeriu a praia e aceitei em seguida, como se aceitam desafios suicidas. O tema tinha tudo para me afastar: era um lugar comum da natureza (e me interesso apenas por cultura), um espaço muito pop, que nunca havia me inspirado uma única ideia. Quando comecei a escrever, no entanto, tudo apareceu: histórias, impressões da infância, traumas, referências culturais. Sobre meu comportamento na praia, temo não ser um bom exemplo: não tenho atitudes vitais, não sou um nadador empedernido, não pratico esportes náuticos. Gosto de caminhar, chafurdar-me nas ondas ou flutuar languidamente, e sobretudo ler. Nunca leio tanto como quando estou na praia. A praia é minha biblioteca perfeita. 

Ao longo dos textos o tema "praia" se expande: você fala sobre história, consumo, cultura, sociedade. O assunto "praia" é um meio para chegar a outros aspectos, talvez mais complexos?
Não é um problema do tema mas do registro com que se trata esse tema, a modulação. O ensaio é justamente o gênero ideal para transformar um tema banal ou inclusive frívolo como a praia em um nó de problemas interessantes. Bem praticado, o ensaio torna radioativo tudo o que toca. 

Em livros anteriores, como "História do pranto" e "História do cabelo", você falou sobre grandes questões sociais a partir de pequenas situações ou objetos. Seria uma estratégia: para comentar aspectos contraditórios da política ou da sociedade você procura pistas em detalhes de um contexto maior?
Sim: creio que a porta de serviço é a maneira mais interessante de entrar nos grandes edifícios. É possível ver outras coisas, novas, inesperadas, e as coisas que vemos todos os dias passam a ser observadas em perspectivas desconhecidas. No detalhe menor está tudo. Só é preciso saber interpretá-lo. 

Ano passado você veio ao Recife e debateu a literatura produzida "em tempos sombrios", a influência da ditadura em seu processo de criação. Acha que a sombra da opressão política pode ser percebida também neste texto ensolarado?
Não creio. "A vida descalço" é um livro tão feliz, tão sem sombras, que até mesmo me surpreendeu. 

Você  escreve fragmentos da memória, lembranças pessoais, e em alguns trechos existem dúvidas sobre o que é ficção ou fato biográfico. A fronteira entre real e ficção atrai seu interesse? 
Me interesso por tudo o que vacila. E não há nada mais vacilante do que a memória. Em parte porque é falível e frágil, e em parte porque sempre é interessante. Criamos memória estrategicamente, para apoiar ou justificar ou explicar algo que acontece no presente, nunca "por amor à memória". E nesse gesto estratégico há uma dose importante de manipulação, montagem. 

As fotografias que acompanham os textos possuem uma interessante carga de afeto, sugerem nostalgia e remetem à infância. O que essas imagens agregam ao livro? 
As fotos fornecem uma cota de documentação. Não são boas fotos; o foco é impreciso, nada é muito nítido, são bastante domésticas para dizer algo claro. Não documentam algo que aconteceu e sim o modo vago e ligeiramente alucinatório em que recordamos, em que uma câmera - a do meu pai, um maníaco da praia, do sol e da fotografia na praia embaixo do sol - recorda o que aconteceu. 

O livro tem frases longas, em que você muda de assunto no meio da argumentação e sugere temas diferentes - aspectos que legitimam o gênero ensaio, um texto com liberdade criativa. Como avalia o estilo de narração desse livro?
O livro foi para mim a possibilidade de experimentar com todas as potências do ensaio como forma. Ideias, sem dúvida, raciocínios e argumentos, é claro; mas também a liberdade de conectar essa dimensão conceitual com uma dimensão mais narrativa e uma intimidade pessoal, feita de evocações sempre no limite da mistificação, e com uma escritura que fabricasse uma sintaxe flexível, capaz de articular em uma mesma frase uma anedota de infância, um esboço de crítica de cinema, um comentário sociológico sobre o verão e uma teoria absolutamente caprichosa sobre o parentesco secreto entre a areia (inimiga da tecnologia informática) e o Silicon Valley. 

No livro vemos uma certa América Latina, não apenas pelas praias, mas por tradições ou hábitos recorrentes. Podemos dizer que é uma obra com endereço geográfico marcado, ou as questões descritas têm apelo universal? 
Creio que é um livro muito local, sim, muito arraigado em uma maneira de experimentar a praia que é ao mesmo tempo existencial e cultural, e que é claro está determinada pelo contexto histórico e político da América Latina. Pena que essa intervenção do contexto nunca apareça tão claramente como quando as praias se deterioram, se arruínam, deixam de ser paraísos para se converterem em pesadelos. 

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Todos odeiam o atacante


Hugo Viana


Ano passado foi lançado o livro de contos "Geração subzero", organizado pelo professor e escritor Felipe Pena, que tinha como proposta publicar, num único volume, autores que eram, ao mesmo tempo, mal tratados pela crítica literária e sucesso de público. Escritores como André Vianco ou Thalita Rebouças, que produzem para estantes específicas, enredos de gêneros definidos, como suspense, fantasia ou romances adolescentes. 

Embora tenha problemas literários graves (que variam entre enredos mal construídos, clichês narrativos e simplesmente textos ruins), parece importante pensar "Geração Sub Zero" não apenas como um livro de contos, mas também como uma publicação que fala em voz alta sobre o mercado editorial, revelando aspectos nem sempre observados com atenção, como a distinção entre literatura "intelectual" e outra "comercial", livros elogiados mas com tiragem pequena (geralmente 5 mil) e outros que, mesmo sendo best sellers, não possuem apoio da crítica literária. 

Um exemplo dessa literatura "comercial" é "Nove contra o 9", escrito por José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta, escritores, jornalistas e roteiristas. É um livro que parece mostrar, através de humor sexual e dos bastidores do futebol, o que constitui uma literatura voltada ao grande público, interessada em fácil identificação popular. 

Os protagonistas do livro são Zé Cabala, um vidente alto e magro, de turbante na cabeça, que trabalha adivinhando resultados de jogos, benzendo atletas e recebendo espíritos de craques do passado, e Gulliver, o narrador da história, uma mistura entre Sancho Pança e Watson, um escudeiro em versão reduzida, um deficiente vertical acostumado a trocadilhos de baixo nível. 

Enquanto fogem de torcedores irados que os contrataram para que o time não caísse para a segunda divisão ("não caiu, despencou", explica Gulliver), essa dupla pouco habilitada a atividades que exijam esforço intelectual chega a Banânia, cidade tão pequena que "não tem semáforo". Eles escutam pelo rádio a final do campeonato local e ouvem quando Beleza, o maior atacante da história do Banânia Esporte Clube, morre em campo, logo depois de fazer o milésimo gol. 

O livro faz ironia constante ao gênero policial, lembra Ed Mort, paródia torpe de detetives norte-americanos, personagem criado por Luís Fernando Veríssimo em 1979. Em cada sequência de investigação de Zé e Gulliver os autores citam grandes detetives do cinema ou da literatura do passado, tentativa de sugerir conhecimento de causa, embora sem qualquer motivo. Os personagens são esboços exagerados do universo esportivo, como o zagueiro grande e forte que na verdade é gay, o eterno reserva, o cartola ladrão, o torcedor fanático. Nenhum deles vai além do que o rótulo sugere, limitados por um sentido imaturo de humor. 

"Nove contra o 9" parece ser um exemplo da "geração subzero": um livro sem maiores pretensões autorais, uma história rápida (e um tanto descartável) baseada em regras claras para prender a atenção, envolvendo mistério, humor, sugestão de sexo e comentários sobre os bastidores do futebol. Parece existir um cuidado maior com a palavra, com o ritmo da frase, aspectos essenciais pouco vistos no livro organizado por Felipe Pena, mas a sensação geral é de um quadro estendido de Zorra Total ou Casseta e Planeta. 

"Nove contra o 9"
Alfaguara, 120 páginas, R$ 29,90

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Os limites do preconceito


Hugo Viana


"O lugar sem limites", livro do escritor chileno José Donoso (1924-1996), lançado originalmente em 1966 e de volta ao mercado em nova edição da Cosac Naify, tem como epígrafe um trecho de "Doutor Fausto", de Marlowe, em que Mefistófeles diz: "O inferno não tem limites, não se localiza num só lugar; porque o inferno é onde estamos, e onde for o inferno, lá estaremos para sempre". 

A escolha dessa citação não é aleatória; Donoso parece sugerir que a história narra o inferno de provações de seus personagens, a repetição de erros que permanecem através de gerações. O enredo fala sobre Manuela, travesti que comanda um bordel decadente numa pequena cidade do interior do Chile esquecida pela modernidade, El Olivo. Esse vilarejo é como uma cidade de velho oeste, onde boas maneiras e regras de etiqueta parecem sem sentido diante de homens de mãos grandes e pelos no peito que gritam bêbados por cerveja e mulheres. 

Donoso fez parte do Boom Latino-Americano, movimento literário que aconteceu entre os anos 1960 e 70, embora seja menos conhecido do que os escritores que lideraram o projeto, Julio Cortázar (Argentina), Carlos Fuentes (México), Mario Vargas Llosa (Peru) e Gabriel García Márquez (Colômbia). Donoso escreveu um relato sobre o período, o livro "Historia personal del 'boom'" (1972), ainda inédito no Brasil, mistura de ensaio e testemunho em primeira pessoa. 

Foi através do Boom que esses artistas cruzaram fronteiras e foram reconhecidos na Europa, com obras que misturavam influências do modernismo europeu e das vanguardas da América Latina. Fizeram livros que experimentavam aspectos da criação literária, não apenas testando formas diferentes de contar uma história, mas também através de enredos que sugeriam comentários engajados sobre o contexto político e social da América Latina. 

"O lugar sem limites" é centrado nos personagens Manuela, sua filha, Japonesita, e Don Alejo, político que é dono de boa parte de El Olivo. A partir de Alejo, Donoso constrói um panorama político em miniatura, criando um personagem que através de pequenos benefícios e sorriso duvidoso cresceu e assumiu o cargo de senador. Com Manuela e Japonesita, Donoso comenta a capacidade limitada de uma comunidade aceitar o que é diferente, como se o ambiente exterior deteriorado de El Olivo de alguma forma revelasse a humanidade monstruosa de seus habitantes. 

Como herança do Boom, o livro possui certa medida de experimentação, a vontade de demonstrar criatividade mesmo em pequenas frases. A narração, por exemplo, oscila entre os personagens sem marcação evidente, os pensamentos se confundem, as ações tornam-se ambíguas por causa da forma virtuosa como Donoso descreve acontecimentos. São métodos de escrita que embora permançam na literatura contemporânea parecem chamar mais atenção para o estilo do que para o conteúdo. 

O principal aspecto político do livro está na personagem Manuela, na capacidade de a partir da sexualidade gerar comentários sobre preconceito e violência social contra pessoas que exercem de maneira inofensiva o que os torna humanos. Manuela  é construída com incrível ambiguidade psicológica, às vezes consciente de sua condição social frágil, menosprezada por ser diferente do padrão, sendo chamada de veado ou degenerado, enquanto em outras ocasiões ela parece uma boneca de porcelana prestes a quebrar num lixão humano, mas ao mesmo tempo fascinada pela beleza que, como mulher, pode projetar para fascinar. 

SERVIÇO

"O lugar sem limites"
Cosac Naify, 160 páginas, R$ 29,90

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Herói sonhador e desajeitado


Hugo Viana


Tadeo Jones é um pedreiro, mas enquanto trabalha em construções colocando pedra sobre pedra sua imaginação modifica a realidade: é como se o escombro da obra fosse, na verdade, uma caverna perdida, um local secreto da natureza que esconde um grande mistério e também um tesouro. É uma mania que persiste da infância; o cotidiano é enfadonho, então Tadeo altera sua percepção, tornando-se um arqueólogo destemido, um professor de chapéu e chicote, garantindo assim uma certa noção de aventura. 

Estreia hoje "As aventura de Tadeo", animação espanhola dirigida por Enrique Gato, que em 2001 criou o personagem (grande sucesso no país de origem). O filme começa mostrando Tadeo como uma criança que confronta a solidão através da fantasia. Tadeo cresce, torna-se um jovem adulto, mas esse sentimento permanece: ele procura, sem o conhecimento necessário, achados arqueológicos que na verdade são lixos jogados na rua. Essa rotina continua até que o herói atrapalhado meio sem querer se envolve numa grande aventura, a procura pelo tesouro perdido de uma comunidade Inca. 

"As aventuras de Tadeo" parece ser um filme infantil que não empolga na mesma medida os adultos: depois dessa apresentação interessante do protagonista, que cria uma situação que gera facilmente empatia, o enredo se transforma numa espécie ordinária de aventura já vista em outros filmes, seguindo fórmulas previsíveis de ação ("Indiana Jones" é inspiração evidente, não apenas através do protagonista, mas também como ação em lugares exóticos, com cenas copiadas em detalhes, além de "El Dorado", animação que trata de um tesouro Maia). 

Com exceção do protagonista, que em sua mania de sonhador desajeitado consegue divertir, os personagens coadjuvantes são pouco inspirados, parecem pertencer a uma antologia de experiências mal sucedidas de desenhos prévios. E a história, que no início prende a atenção por misturar ação e desenvolvimento emocional de Tadeo com certo arrojo, aos poucos se transforma em algo banal, com cenas sem a adrenalina necessária em sequências de aventuras. 

Parece importante avisar que o filme entra em cartaz também em projeções 3D, já que durante a sessão é provável que o espectador esqueça: pouca ou nenhuma cena usa o potencial virtuoso das três dimensões. 

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Atmosfera bruta em filme policial


Hugo Viana


"Caça aos Gângsteres" (EUA, 2013) tem inspiração no cinema clássico norte-americano, os filmes policiais dos anos 1940 em que bandidos enfrentavam detetives moralmente ambíguos, que bebiam uísque segurando um cigarro e que para terminar um caso não seguiam com fidelidade o que está escrito na lei. 

O filme se passa em 1949, em Los Angeles, período particularmente confuso da história norte-americana. Alguns anos depois da Segunda Guerra Mundial, policiais que durante o conflito mataram alemães e japoneses voltaram com um sentimento amargo de vitória, tornando-se homens da lei taciturnos. Enquanto a Guerra Fria não deixava evidente a identidade dos inimigos (os russos), eles enfrentavam guerras internas contra criminosos que dominavam cidades através de suborno. 

Mickey Cohen foi um desses bandidos (personagem autêntico da história, interpretado por Sean Penn), um boxeador mafioso judeu que na cena inicial comanda uma sessão de esquartejamento. Em seguida o filme mostra John O'Mara (Josh Brolin), policial tipo brucutu, que ataca cafetões com métodos tão violentos quanto os de Cohen. 

O filme parece ter orgulho em aumentar sem motivo a duração de cenas de ação e a quantidade de sangue por morte filmada, com câmera lenta sugerindo o assassinato como espécie de espetáculo, algo que a censura impedia nos anos 1940, obrigando a necessidade de insinuar violência, e não filmar. 

O trunfo comercial do filme é o elenco, formado por atores que bem ou mal têm público garantido. Além de Brolin e uma participação exageradamente pequena de Nick Nolte, o lado da lei tem Ryan Gosling, no papel de charmoso encantador, mas que com voz de garoto parece perdido em cenas de tiroteio. Sean Penn interpreta com maquiagem excessiva, uma camada extra de pó para aumentar grandiosamente o nariz e afirmar uma suspeita identidade cultural de judeu. 

O filme parece inspirado por "Os intocáveis" (1987), grande exemplar policial de Brian De Palma. John reúne um grupo de policiais que embora não sigam exatamente as regras são homens que miram o bem, algo como justiceiros politicamente incorretos. O roteiro passa a impressão de desperdício de talento, com longas cenas de ação filmadas no automático e pouco desenvolvimento de coadjuvantes promissores. 

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Imagens de um futuro distópico


Hugo Viana

A ficção científica é geralmente interpretada como gênero de criação livre, em que aspectos do mundo real são transformados em histórias cujo exagero tecnológico parece conter receios autênticos sobre a maneira como a humanidade se desenvolve. Essa noção de futuro incerto para uma sociedade que rompe limites éticos e morais para avançar no mundo digital está na história em quadrinho "V.I.S.H.N.U.", obra que trabalha com qualidade aspectos do gênero.

A HQ reuniu três autores: Eric Acher, consultor e investidor em empresas de tecnologia, criou um argumento para história em quadrinho baseado nessas inquietações; em seguida, o jornalista e escritor Ronaldo Bressane estruturou a ideia em forma de roteiro, e então o artista e ilustrador Fabio Cobiaco usou a pintura preto e branco para transformar o texto em imagens. O projeto nasceu de uma proposta da editora Companhia das Letras: unir escritores e ilustradores num projeto de arte sequencial único e da RT Features, produtora de Rodrigo Teixeira.

"A ideia surgiu há uns dez anos, depois de ler o livro 'The age of spiritual machines' ['A era de máquinas espirituais'], de Ray Kurzweil, cientista brilhante, defensor da evolução tecnológica. Nessa mesma época, Bill Joy, outro gênio da tecnologia, escreveu um artigo para a revista Wired, 'Why the future doesn't need us' ['Porque o futuro não precisa de nós'], com uma visão bem mais pessimista da capacidade de destruição das novas tecnologias do século 21", explica Eric. "Essas visões contraditórias de dois grandes cientistas me intrigaram. Como fã de ficção científica, pensei em uma história que misturasse as duas: e se num futuro surgisse uma inteligência artificial messiância e 'humanista', que propusesse resolver esse paradoxo das motivações humanas por trás do uso da tecnologia, consertando um suposto 'bug' do cérebro humano?", comenta o autor.

Na história, essa inteligência artificial surge como uma espécie de salvação num período em que a tecnologia se tornou uma ameaça à existência. Ao mesmo tempo, V.I.S.H.N.U. (o nome da inteligência) é tratada com desconfiança: como acreditar em algo com o potencial de gerar caos? Essa espécie de salto de fé é o que move o enredo, uma intrigante história que mistura referências religiosas e políticas ao mesmo tempo em que traz artifícios do thriller policial. "Antigamente a ficção científica era um gênero distante da realidade. Nas últimas décadas, ela se aproximou da realidade. Embora o tema de 'V.I.S.H.N.U.' - o impacto da evolução da tecnologia - seja clássico, o enredo pode surpreender através do elemento místico/religioso", sugere Eric.

O trabalho de narração visual de Fabio Cobiaco é interessante: ao mesmo tempo em que sugere um estilo único, uma representação visual de futuro caótico que mantém ligações com o presente, deixa claro conexões com outros artistas que trabalharam na ficção científica (Moebius é talvez a grande referência). Cobiaco faz desenhos com um tipo sujo de impressionismo, imagens que conseguem através de poucos e bruscos traços sugerir feições (e emoções).

O fascínio do gênero parece estar em imaginar o mundo 100 ou 200 anos depois do agora, criando ficções que parecem captar com precisão as transformações políticas e sociais geradas pelo crescimento na tecnologia. Em "V.I.S.H.N.U.", temos uma história em que a sociedade parece não suportar o nível de evolução na tecnologia - ou talvez a humanidade não acompanhe com o mesmo ritmo esses avanços.

DEPOIMENTOS

Ronaldo Bressane, roteiro

"Quando Eric me contou seu argumento, senti que havia abertura para temas da New Wave da ficção científica - autores como JG Ballard e Philip K Dick, e, de algum modo, William S. Burroughs -, que passam por uma perspectiva mais pop, próxima do cotidiano, bem como a interação sexual entre homem e máquina, a ideia burroughsiana de linguagem como vírus e a filosófica questão da identidade, tema central da FC: até que ponto um objeto tecnológico pode ser dotado de uma alma?"

"Na teoria de Tzvetan Todorov, a ficção científica é uma derivação da literatura fantástica - em que existe uma "hesitação" entre real e fantasia - norteada por questões relacionadas à ciência, tecnologia, futurologia e filosofia. Ou seja, parte de uma premissa "E se...?" e vai embora. Então as possibilidades são infinitas, porque a FC é um pacto entre autor e leitor; se um dos dois questiona demais se o que está sendo contado é possível ou verdadeiro, algo foi malfeito e a brincadeira perde a graça"

"Leio ficção científica desde, sei lá, as histórias do Astronauta, do Mauricio de Sousa, que descobri na infância. Asimov, C. Clarke e Bradbury vieram na adolescência. Philip K Dick, um dos escritores que mais gosto, conheci, como muita gente, depois de ver o filme "Blade Runner". Muito subestimado - como aliás todo o gênero FC (muito por conta de escritores ruins, críticos sem imaginação e leitores que babam na gravata) -, PKD ainda será percebido como um dos maiores autores do século 20"

Fabio Cobiaco, arte

"Na hora de desenhar eu sabia que se apelasse para qualquer truque visual de Moebius, por exemplo, estaria condenado. O mundo da FC é relativamente pequeno, iriam sacar e meu trabalho iria por água à baixo. Desenvolvi alguns conceitos para guiar a arte. Não mudei muita coisa dos dias de hoje, apenas acrescentei um design diferente, mais poluição e objetos voando. Mas basta olhar para o céu em São Paulo para ver que estamos quase lá, ou na arquitetura futurista de Xangai"

"Minha abordagem básica ao encarar uma página é sempre a de uma batalha. Pra mim é um dragão que eu tenho que matar. Posso dizer com certeza, pois trabalho em várias áreas do desenho: quadrinhos é o trabalho mais difícil que existe. O bom autor de quadrinhos tem que dominar várias disciplinas, direção de arte, narrativa, composição, arquitetura, fotografia. É um trabalho árduo, solitário e que requer muito investimento por parte do autor. Não adianta fazer 200 páginas maravilhosas e não terminar as últimas dez"

"Me interessei por ficção científica com animes japoneses que passavam na tv quando eu era garoto. Na adolescência conheci quadrinhos do pernambucano Watson Portela, e, através dele, o trabalho do Moebius, o maior nome da FC. Na literatura Julio Verne e Frank Herbert detonaram minha cabeça. Nos últimos 15 anos tenho estudado a obra do pintor surrealista suíço HR GIGER, que trabalha uma outra vertente da FC, ligada à biologia e a tradições herméticas"

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

As diferentes camadas do amor


Hugo Viana


O diretor austríaco Michael Haneke, 70 anos, ocupa um lugar curioso no mercado: vem ganhando prêmios diferentes e significativos, como o Oscar e a Palma de Ouro em Cannes, além de a cada novo filme atrair mais interesse público, mesmo fazendo, essencialmente, o mesmo tipo de cinema há décadas. 

Na aparente ausência sentimental, Haneke parece fazer ensaios sobre vida privada e sociedade fora de controle, uma maneira de contar histórias que se aproximam com precisão cirúrgica de dramas humanos. Em "Amor", título que na brevidade contém a força da sugestão, Haneke narra uma história dolorosa que parece em harmonia com seus filmes anteriores, unidade que ganha forma desde os anos 1980, uma trajetória reconhecível na capacidade duramente honesta de falar sobre angústias com distanciamento emocional. 

A história é sobre Georges (Jean-Louis Trintignant) e Anne (Emmanuelle Riva), que estão com 80 e poucos anos, foram professores de música e agora mantêm uma rotina no vigor que a idade permite. Certo dia, Georges nota um lapso momentâneo na mulher, que durante o café da manhã permanece imóvel por alguns minutos. Exames mostram a necessidade de operação, e Anne infelizmente está na eventualidade dos 5% de chance de dar errado: a cirurgia deixa seu lado direito paralisado. 

O filme então parece demonstrar, através de ações e poucas palavras precisas, as diferentes camadas do amor. Não apenas o sentido de companhia nas horas difíceis, o apoio para um corpo antes cheio de energia e agora em estado gradual de falência, mas também a digna fidelidade de querer bem, a ternura necessária para atos extremos de compaixão mesmo que signifiquem sacrificar o que há de verdadeiro e essencial na vida. 

Talvez esse filme não fosse tão especial sem Trintignant e Riva, atores com histórias pessoais no cinema que parecem vivas em "Amor". A certa altura, Trintignant comenta que quando era garoto foi ao cinema; ele recorda vagamente a história e diz, com a serenidade peculiar de quem parece falar sobre a própria biografia: "Não me lembro do nome do filme, mas me lembro do que senti na época". Haneke incorpora aspectos particulares dos atores, atualizando com amor imagens eternizadas no passado do cinema, especialmente a participação de Riva em "Hiroshima, meu amor" (1959). 

Embora a atuação de Riva venha sendo elogiada (concorre ao Oscar de melhor atriz), sugerindo fraqueza gradual e perda de lucidez com talento especial, Trintignant parece ter a missão mais difícil por ser, nas palavras de Anne, um "monstro gentil". A natureza humana é terrivelmente complexa, sendo movida por sentimentos primevos e difíceis de analisar através da razão, e é justamente esse aspecto impossível de apreender que os dois atores demonstram, elevando o filme a cada cena. 

Haneke mantém seu estilo peculiar de filmar, dilatando a extensão de uma cena na aparência comum, com isso modificando a rotina, sugerindo, assim, que algo essencial e ao mesmo tempo inexplicável ocorre em cena. 

O diretor parece especialmente interessado no corpo humano, nos efeitos do tempo sobre o físico. Uma ação simples como se levantar ou trocar de roupa é filmada na duração exata que a força dos 80 anos permite, e não parece existir qualquer exagero ou manipulação emocional: é talvez um comprometimento com a vida, uma reflexão sobre o momento em que ela e a morte parecem encaminhar um instante único.