quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

#8 Terminator 2: judgment day (1991)


O segundo filme da franquia segue a mesma estrutura narrativa do primeiro, apresentando dois visitantes do futuro que voltam no tempo para mudar o rumo da guerra iminente. A diferença está no personagem de Schwarzenegger; reprogramado pela resistência, deixa de ser robô vilão e se transforma em máquina cujo propósito é defender John Connor, que no futuro será ameaça para os computadores. Há cenas constrangedoras em que Schwarzenegger aprende sobre emoções humanas, a natureza sentimental do choro, argumento que parece adicionar uma carga ingênua à trama, pouco coerente com a atmosfera sinistra do filme. Parece uma tentativa de desenvolver personagens que executa ideias banais mirando uma certa "profundidade psicológica", um choque incômodo entre ambiência e execução. A tecnologia está mais avançada, as cenas do futuro distópico deixam de parecer maquetes de papelão, ganham densidade e atmosfera tétrica. Na primeira metade da versão estendida (2h30), há pelo menos duas cenas de ação que parecem resumir de maneira intensa o gênero ação segundo James Cameron; poucas palavras, uso dramático do close e do plano geral, sequências que parecem evoluir de forma criativa e violenta. O final da versão estendida é uma das grandes bobagens filmadas por Cameron, que parece ter um orgulho estranho da pieguice. 

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Mergulho profundo em lembranças


Tema comum na literatura contemporânea, sendo manipulado por diferentes autores com resultados imprevisíveis, a memória é a matéria de trabalho do escritor argentino Fabián Casas, 48 anos, no livro "Os lemmings e outros". A partir de lembranças da adolescência, autênticas ou transformadas por mecanismos da ficção, Fabián compõe contos em que imagens da juventude, nos anos 1970 e 80, parecem carregadas de lirismo e humor. O livro integra o projeto Otra Língua, da editora Rocco, no qual o escritor Joca Reiners Terron promove uma revisão de autores da América Latina relevantes mas pouco conhecidos no Brasil. 

A memória como argumento de pesquisa, como motivação para a criação literária, é uma etapa essencial no processo de escrita de Fabián, que desenvolve enredos baseados em reminiscências de sua juventude em Boedo, bairro de Buenos Aires, sede do Club Atlético San Lorenzo. "Não tenho imaginação, então a memória ocupa um lugar importante na construção dos meus relatos", destaca Casas. "Mas não tenho uma memória de aço, e com o tempo comecei a perdê-la. Com isso minhas narrações começaram a enfraquecer, até ser uma pequena gota de água", sugere.    

Fabián se destacou, no fim dos anos 1980 e começo da década de 1990, com um projeto poético de vigor; sua produção o colocou, poucos anos depois, como um dos integrantes da "geração dos anos 1990", movimento literário argentino que refletia sobre o contexto político do período através de versos e alegorias. Os poemas de Fabián parecem equilibrar o pensamento estético e a convulsão política. "Era a época do neoliberalismo selvagem", lembra Casas. "Tratávamos de escrever em meio a isso. Agora o liberalismo se escondeu com a roupagem do progressismo. É a mesma luta", destaca. 

A experiência com poesias, a aptidão para o manejo de narrativas curtas em que as frases conseguem reunir, em poucas palavras, sentimentos complexos e metáforas sociais, parece fornecer à prosa de Fabián diferentes camadas de entendimento. Ao mesmo tempo em que apresenta, com objetividade, memórias pessoais e a intimidade de sua família, o autor sugere um ambiente lírico; a marca pessoal parece surgir em trechos que projetam o efeito do tempo e da memória através de uma sensibilidade aguçada. "Eu começo a escrever porque sinto uma musiquinha no meu ouvido", diz Fabián, "e dependendo da extensão da respiração dessa música, o texto se converte em verso ou prosa", ressalta. 

Embora as histórias tenham endereço fixo em Boedo, enredos sobre o cotidiano num pequeno bairro, os acontecimentos parecem, em alguma medida, representar emoções universais; ao observar de perto a construção de uma coletividade, é possível perceber conexões com o mundo externo. "Acho que falar sobre si mesmo é uma maneira de dar conta de uma experiência universal", sugere Fabián. "Sei que os leitores brasileiros sentem isso, porque me escrevem dizendo que passaram por essas mesmas coisas", revela. 

O escritor explica que trabalha, agora, em um livro que parece apontar uma mudança de estilo - ou talvez adaptações de suas marcas reconhecíveis para outras possibilidades narrativas. "A novela que estou escrevendo agora acontece em um território desértico, num futuro ou passado recôndito. Não há mais Boedo: creio que um escritor tem que trabalhar sempre contra sua habilidade", adianta. 

"Os lemmings e outros", de Fabián Casas
Rocco, 160 páginas, R$ 29,50 

#7 Westworld (1973)


Em seus momentos discretos de comédia, pequenos comentários de humor social bem colocados no meio de uma ficção científica, o filme de Michael Crichton revela o protótipo do jeca contemporâneo; a pessoa rica que, precisando fugir da realidade burocrática, paga muito dinheiro para experimentar caprichos de algum período histórico reconhecível pelo que há de mais evidente (Roma, Europa Medieval, Velho Oeste), vivendo o aspecto pitoresco de um passado vagamente familiar. Gastam uma fortuna para se parecer com nativos, usando roupas de guerreiros, caubóis ou princesas, sem se interessar necessariamente pela cultura daquele período, apenas por uma ideia exótica de fantasia étnica - "ser" um xerife, um cavaleiro, para preencher a volúpia do desejo. A história é sobre um parque de diversões povoado por robôs que agradam hóspedes, máquinas submissas controladas para suportar desejos reprimidos (assassinato, sexo). Crichton trata seus personagens como idiotas, uma curiosa ausência de protagonista bravo. Há cenas que sugerem a iminência de um mal estar; algo acaba dando bastante errado, os cientistas não conseguem mais controlar as máquinas, que se rebelam de forma bruta contra os hóspedes. A violência é filmada em câmera lenta, ressaltando a impressão de espetáculo terrível, deixando um gosto amargo de vazio. 

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

#6 The terminator (1984)


James Cameron é um dos cineastas que defende a tecnologia como alternativa para intensificar as possibilidades do cinema, criando histórias que se complementam com incentivo da cenografia, projeção ou interferência digital na imagem. Seu primeiro sucesso, em 1984, sugere a ambição por tecnologia como um fator essencial para a concepção do filme, apresentando decisões estéticas que parecem ousadas para o alcance técnico do período. Arnold Schwarzenegger é um monte de músculos e ferro, um robô assassino do futuro, uma máquina que tem apenas uma missão, matar Sarah Connor e quem estiver no caminho. É mais ou menos como os vilões de John Carpenter, um grande mal que segue apenas em frente e não responde à razão. Tem poucas falas e todas parecem gradualmente mais interessantes por causa do sotaque e da maneira absolutamente amadora da pronúncia e do gestual, dados que contribuem para a formação de um agradável ambiente de filme B. É o tipo de personagem que se repete em outros filmes brutos dos anos 1980, como Rambo ou Predador, um assassino cuja atuação extrema ignora a existência da lei. Indícios do gênero horror e atmosfera de ficção científica fazem deste filme um exemplo da habilidade de contador de histórias de Cameron, um projeto que os anos parecem agir à favor da criação de fãs que parecem interferir no tamanho e alcance desse arrasa quarteirão.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Sopros de mistérios da existência


O autor catalão Enrique Vila-Matas costuma escrever histórias que compartilham uma unidade reconhecível. São enredos diferentes, protagonizados por personagens distintos, mas que investigam a mesma sensação, a ideia de que a literatura se estende de maneira difusa e afeta a realidade; a página como rastro de um movimento que segue de forma contínua. Seus principais livros apresentam alegorias que buscam no aspecto negativo (falha, morte, desaparecimento) um jeito irônico de superar traumas e compreender o ato de criação, o instante decisivo da produção literária. 

Sua obra mais recente a entrar no mercado editorial brasileiro é "Exploradores do abismo" (o lançamento original, na Espanha, foi 2007). É um livro em que Vila-Matas apresenta 19 narrativas curtas baseadas essencialmente em temas presentes em textos anteriores: o vazio, o anonimato, o desaparecimento, o erro, as trocas necessárias entre vida e literatura. Os personagens, alguns deles escritores, reais ou inventados, não fogem do escuro que os cerca, do abismo existencial, ao contrário: se jogam em busca de algum tipo de experiência ou conhecimento redentor. 

A definição "livro de contos" parece não sugerir todas as leituras possíveis; Vila-Matas apresenta fragmentos creditados a outros autores, escreve como um narrador no processo de criação, analisa escritores e livros específicos, insinuando um tipo de crítica literária através da ficção. Os livros do catalão possuem esse aspecto de que a literatura é como uma memória contínua, que permanece viva em novos autores, desenvolvendo enredos de ficção através do passado literário (foram personagens em romances anteriores do autor, entre outros, Robert Walser, Franz Kafka e Fernando Pessoa). 

O personagem-narrador que surge em alguns contos é um produto de ficção, mas seus comentários parecem oferecer alguma perspectiva sobre a obra e os bastidores do trabalho de Vila-Matas. Ele escreve, por exemplo, no conto "Das tripas coração": "Há um ano voltei a escrever contos, mas sem perceber que na verdade continuava com os hábitos de romancista. Continuava utilizando um tempo moroso, nem um pouco adequado para a narrativa breve". É uma frase que motiva certa ambiguidade em relação ao que é ferramenta de ficção ou revelação do ofício. 

Nos momentos do texto em que o termo "ficção" parece se adequar, fica evidente a fluência do texto de Vila-Matas, a maneira como o autor cria enredos, situações dramáticas e personagens complexos. Essa sensação parece forte, por exemplo, no conto "Menino", em que um pai explica a relação difícil com seu filho, detalhando ressentimentos que duram 60 anos, revelando que ele é "um falso explorador do enigma do mundo, o ser mais superficial da terra"; descrição perfeita para os personagens de Vila-Matas - falhos, em busca do entendimento de mistérios percorrendo caminhos menos óbvios. 

Serviço

"Exploradores do abismo", de Enrique Vila-Matas
Editora: Cosac Naify, 320 páginas, R$ 45

#5 Point blank (1967)


Não apenas o estilo de um diretor interfere na evolução de um gênero, mas também a própria construção cultural de uma época, as perspectivas sociais, políticas e econômicas de um determinado período. A estética policial, que nos anos 1940 esteve atrelada a detetives que ignoravam limites éticos para derrotar chefes do crime, a mulheres cínicas claramente mais espertas do que os homens, passou por modificações que parecem revelar informações de cada período. Em 1967 John Boorman filmou um thriller policial que hoje parece sugerir, tanto na forma quanto no conteúdo, pensamentos da década. O novo vilão não é um homem que domou bandidos à força e espalhou medo nas ruas, mas a "corporação", a "organização", uma instituição sem nome que parece dominar economicamente a sociedade, um organismo vivo cujo topo pode ser modificado, mas a essência permanece entranhada numa noção implacável de poder. Lee Marvin é traído por seu parceiro de crime, sua mulher o abandona pelo canalha, ele é deixado à beira da morte; um homem destruído emocionalmente. Sua motivação é recuperar a quantia exata que foi roubada, U$ 93 mil, matando criminosos no processo. O filme tem a identidade dos anos 1960 em sua construção técnica, sendo fortemente influenciado pelas renovações estilísticas promovidas por diretores da Nouvelle Vague. A montagem se torna acelerada de acordo com o ritmo do enredo, tempos diferentes se misturam, fatos essenciais são sugeridos através da sucessão de imagens rápidas e posicionamento de câmera que foge ao rigor tradicional da gênese do noir, nos anos 1940 - sintomas que colocam o filme como exemplar de sua época ao mesmo tempo em que identifica sua relevância para a história do cinema.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

#4 Only god forgives (2013)


O material de publicidade (trailer, cartaz) parece sugerir que Ryan Gosling é o protagonista, mas o roteiro se esforça em sabotar a presença do ator em cena, criando exatamente 17 falas para seu personagem em 1h30 de filme, e uma única variação de expressão em seu rosto, a ausência de sentimento, a cara de paisagem. Nicolas Winding Refn parece mais interessado em sua pesquisa de estilo, na confirmação histriônica de uma suposta autoria visual, trabalhando os movimentos de câmera, a luz e o departamento de arte ao ponto em que não há naturalidade, apenas planejamento. É a partir da técnica que o diretor tenta desenvolver os personagens. Há um policial que parece ser o real foco de interesse, Chang, homem pequeno que corta braços num tipo de julgamento olho-por-olho, além de talento promissor no karaokê. A possibilidade de filme sensorial, ou de filme de atmosfera, que abdica a narrativa clássica para exercer uma encenação a partir de certo lirismo, parece uma necessidade progressivamente opressora e incômoda. É difícil imaginar uma resposta emocional se o filme não parece interessado em oferecer envolvimento dramático. O protagonista silencioso de "Drive", um herói cujo sentimento estava evidente em suas ações, torna-se uma espécie frágil de homem sem rumo, guiado por uma noção estranha de dever familiar. Sua mãe adorável, Kristin Scott Thomas, chama a namorada do filho de "depósito de porra" num jantar, vilã cujo exagero parece dar fôlego ao enredo. No geral a impressão é que as emoções são fabricadas pela técnica, parecem se esconder em um passado profundo não concretizado na imagem. É preciso paciência e boa vontade, talvez em excesso, para procurar o que torna essa história especial.